30 de outubro de 2008

Uma Segunda Chance

– Próximo.

– Boa tarde.

– Em que posso ajudá-lo?

– Eu preciso de uma nova via da minha certidão de nascimento.

– Claro. Qual o motivo? Perda? Roubo?

– Nenhum. Eu apenas quero uma nova. Mas ainda tenho a antiga. Aliás, está aqui comigo. Achei que talvez vocês fossem precisar.

– Se o senhor tem a certidão de nascimento, porque precisa de outra via?

– Porque eu quero mudar a minha data de nascimento.

– Como assim?

– Eu nasci em 1972. Fiz 36 anos agora em fevereiro. Mas andei pensando sobre a minha vida nos últimos meses, e decidi que quero voltar a ter 16 anos.

– Mas o senhor não pode alterar a sua data de nascimento.

– Por que não? Eu pago meus impostos. Tenho nome limpo na praça. Nunca cometi crime algum. E agora quero exercer meu direito de cidadão de escolher a minha idade. Quero ter 16 anos de novo.

– Mas eu não tenho autoridade para emitir uma certidão de nascimento com a data errada, senhor.

– Eu sei que não. Quem tem a autoridade sobre isso sou eu. Afinal, é a minha idade. E eu quero ter 16 anos.

– Mas por quê?

– Por que o quê?

– Por que o senhor quer ter 16 anos?

– Ah... Gostaria de refazer algumas coisas. Fazer de modo diferente. Namoradas, estudo, você sabe. Fiz algumas escolhas erradas na minha vida, e quero ter uma segunda chance.

– Mas o senhor não pode fazer isso!

– Claro que posso. Até já me matriculei numa escola perto de casa.

– E eles permitiram?

– Sim. Vou cursar o colegial novamente. E depois quero fazer outra faculdade. Fiz economia da primeira vez, agora quero biologia marinha. Ou agronomia. Não sei. Mas não tenho pressa, afinal, ainda tenho três anos para escolher com calma.

– Senhor, eu realmente não posso fazer isso.

– Claro que pode. Eu já até combinei com meus pais que vou voltar a morar com eles, porque, com 16 anos, eu não tenho condições de morar sozinho. Já até estipulei uma mesada com meu pai. Mas tive que prometer a ele que não vou pegar o carro dele escondido, que é algo que eu fazia muito na primeira vez que tive 16 anos. Esta é uma das coisas que eu vou mudar, sabe? Vou obedecer mais meus pais.

– Senhor...

– A certidão demora? Eu ainda quero ir a um shopping, comprar um boné. Minha mãe me adiantou uma parte da mesada escondida do meu pai. Isso eu vou mudar também, mas, como este é o primeiro mês, eu estava meio duro... Bem... Você sabe.

– Não é questão de demorar, é questão de não poder. Isso é contra a lei.

– Qual lei diz que eu não posso ter a idade que eu quero ter?

– Bom... Deve ter uma lei que diz isso, com certeza. Que dia o senhor nasceu?

– Ah! Agora estamos chegando a algum lugar! 28 de fevereiro. Mas ao invés de 1972, eu quero 1992. Pode colocar aí: 28 de fevereiro de 1992.

– Senhor, eu queria apenas saber sua data de nascimento para tentar explicar que isso não pode ser alterado. O senhor nasceu em 28 de fevereiro de 1972. Nada vai mudar isso.

– A não ser eu. Eu vou mudar isso. Aliás, já mudei. Já me matriculei na escola. Já me matriculei num curso de inglês e numa academia. Fui a um médico e ele me disse que com 16 anos já posso começar a fazer musculação. E parei de beber e de fumar. Mas não por causa da saúde, é porque quero começar tudo de novo.

– Olhe...

– Você se lembra do seu primeiro porre?

– Sim, mas...

– Não foi maravilhoso? Eu quero isso de novo. Mas, desta vez, vou fazer diferente. Não vou misturar tequila com vinho, como fiz da outra primeira vez. Vou beber só tequila. Ou só vinho, tanto faz. E a primeira vez que você beijou? Ah, não... Esquece. Todo mundo já beijou com 16 anos. Mas, enfim, você entendeu o espírito.

– Sim, eu entendi o que o senhor quer, mas eu não posso...

– A primeira namorada! Imagine, ter a primeira namorada de novo. Você é casado?

– Sou.

– Eu não. Eu nunca casei com ninguém, porque eu estava sempre procurando um namoro que fosse tão bom quanto o primeiro. Até que eu percebi que o primeiro foi bom daquele jeito justamente porque era o primeiro. Então, eu quero ter o primeiro de novo.

– Mas não será o primeiro. Porque o senhor já teve um primeiro namoro. Um primeiro primeiro.

– Ah, não tem problema. Melhor um primeiro de mentira que um oitavo ou nono de verdade.

– O senhor é louco.

– Não, eu apenas penso assim porque tenho 16 anos. Sou romântico, mas isso é um mal da minha idade.

– O senhor não tem 16 anos!

– Aí que está, ninguém sabe disso. Só eu e você. Eu consigo viver com isso. E, para você, não vai fazer diferença nenhuma. Minha certidão, por favor. Tenho que ir logo para casa que é quase hora do jantar, se eu demorar não vai dar tempo de passar no shopping. E depois quero descer um pouco do apartamento e fazer amizade com o pessoal do prédio dos meus pais. Ainda não conheci nenhum outro menino da minha idade, preciso me enturmar.

– Eu vou chamar o segurança.

– Eu não estou fazendo nada de errado, tio!

– Não me chama de tio! O senhor é mais velho que eu!

– Ok, desculpe. Me empolguei. Não vai acontecer de novo. Mas você não sente saudade disso. De ficar fazendo nada com seus amigos depois da aula? De se apaixonar pela primeira vez? De começar a ficar ansioso na quarta-feira por causa de uma festa que vai acontecer no sábado?

– Sim, claro.

– De fazer um gol no campeonato da escola! Eu nunca fiz um, sempre mandavam eu jogar lá atrás. Desta vez, eu quero ser atacante! Claro que vou passar por coisas ruins também. Geometria. Química. Mas, tudo bem. Não se pode ter tudo.

– Meu senhor, tente entender. O senhor não tem 16 anos. Não adianta querer. O senhor tem 36 anos e pronto. Daqui a 4 anos, o senhor fará quarenta, e não vinte. Daqui a vinte anos, o senhor terá 56 anos. Nada vai mudar isso.

– E o que pode acontecer de pior? Eu morrer mais cedo que as pessoas da minha idade? Qual o problema? Tanta gente morre cedo, porque eu não posso morrer com 50 e poucos anos? E até lá, eu me viro.

– Não, a questão não é essa. A questão é que mudar a sua data de nascimento na certidão não altera sua idade. A certidão é apenas um papel.

– Se é apenas um papel, você pode fazer.

– Não posso.

– Olhe, eu estou aqui com 36 anos tentando ter 16 anos. Certo?

– Certo.

– Se você alterar minha certidão de nascimento, eu vou ter 16. Ou seja, eu ainda não tenho 36. Logo, isso que eu estou pedindo nunca foi feito. Aliás, só será feito daqui a 20 anos, quando eu tiver 36 anos. Ou seja, você não vai ter feito nada de errado. Pelo menos, pelos próximos 20 anos.

– Se o senhor queria me deixar confuso, conseguiu. Mas a resposta ainda é não.

– Você quem sabe. Eu voltar aqui amanhã.

– E minha resposta continuará sendo a mesma. Não.

– Mas eu vou voltar aqui amanhã com o meu pai. Aí, vamos ver se você não muda.

– Eu não posso mudar!

– Amanhã a gente vê isso! Seu babaca!

Saiu batendo o pé. Antes de chegar à porta, cuspiu – de forma exagerada, para todos verem que ele estava cuspindo – no chão do cartório e ainda ficou alguns segundos fazendo gestos obscenos para o atendente e gritando coisas como:

– Você vai se fuder amanhã! Filho da puta!

Acabou indo embora.

O funcionário do cartório, um pouco mais aliviado, olhou para as pessoas na fila e chamou o próximo. Uma senhora de idade se aproximou do guichê e, ainda olhando para a calçada, disse, sem nem mesmo dar boa tarde:

– Essa molecada de hoje não respeita mais ninguém, mesmo. É um absurdo. Garoto abusado. Se fosse meu neto, dava um corretivo nele aqui mesmo, na frente de todo mundo.

O atendente do cartório pediu demissão naquele dia mesmo.

16 leitores:

Tyler Bazz disse...

Muuuuuuito bom! Muito! Faz pensar em coisa pra cacete!

e chamar de 'tio' foi de-mais!!!

Mas ó, Rob, ter um blog de cotidiano e tambéééém um blog literário bom é MANCADA! Escolhe um dos dois :DD

Otavio Cohen disse...

Não escolhe um dos dois não.

Escolhe os dois, po.

eheh

Por que é que eu acho q esse texto foi bem mais serio e profundo do que se pode imaginar?

Varotto disse...

Sensacional Rob!

Mas tem um probleminha (chato mode: ON): no início do texto o protagonista diz que vai fazer 36 "agora em dezembro", mas quando o atendente pergunta a data de nascimento ele diz que é 28 de fevereiro de 1972, ou seja, já fez 36.

Sorry...

Rob Gordon disse...

Varotto,

"chato mode:on" nada, valeu pelo toque. já arrumei.

Valeu!

Lady Dari disse...

juro q naum quero este blog torne-c mais um vicio em minha vida...

Marcio Sarge disse...

Cara!! Que delícia de texto, cheguei a sentir saudades dos meus 16 anos que nem esta assim tão looooooonge no passado.

Foda que agora vou ter uma crise de nostalgia.

Fábio Buchecha disse...

Maldito Rob. Me fez assinar mais um feed.

Sabe o que fiquei imaginando? O garoto (aff... já me confundi também) dizendo "te pego na saída" =P

paulonando disse...

Gostei muito!

Pâmela disse...

Isso me fez lembrar o livro Crepúsculo em que o -perfeito- Edward Cullen tem 17 anos pra sempre, já que ele é um vampiro.
Acho que quero ser uma vampira.

Stanley disse...

Eu tenho 16 anos haha

Pelo visto tenho muito a aprender sobre a vida.

Sou um mero padawan ainda =]

Muito bom o texto,fico feliz q nao o tenha deixado de lado.

Leon disse...

"O que será que tem na cabeça dos amantes?"

Fico imaginando se só eu sou o mártir ou se há outros como eu... Se sinto a dor do mundo sozinho ou outros como eu fazendo papel de Romantico a la sec XVbolinhas

Larissa Bohnenberger disse...

Excelente...
Eu também quero fazer 17, ao invés de 27, no final do mês, será que dá?
Bjs!

Pri disse...

Gente, q perfeição de texto... Rob ameiii

Add com ctz em favoritos, vc posta td dia???


:B

Bjossss

lmartins disse...

SENSACIONAL.

Cristiana Soares disse...

hahahahaha! adorei? posso ter 33?

Marina disse...

Se eu disser que tenho 16 anos, não precisaria nem de certidão pro pessoal acreditar. Até hoje ainda me pedem identidade na entrada de boate e pra comprar bebida.

 

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