2 de março de 2007

Noites de Quinta

Como acontecia toda quinta-feira, se reuniram no bar para tomar cerveja e jogar conversa fora. Na verdade, a cerveja era apenas um pretexto para que pudessem se reencontrar, e relembrar os bons tempos, quando os quatro ainda moravam na mesma rua, andavam descalços e sem camisa, jogavam bola o dia inteiro e acreditavam que o resto da vida seria assim. Porém, os anos foram passando, as responsabilidades começaram a aparecer do nada (junto com as camisas e os sapatos) e o tempo ficou curto. Sobraram apenas as noites de quinta, que haviam se tornado uma espécie de ritual.

Mas as noites de quinta tinham uma grande vantagem: elas não tinham hora para acabar. E, invariavelmente, quando o número de garrafas vazias sobre a mesa denunciava o estado alcoólico do grupo, era chegado o momento das confissões, dos segredos, dos saudosismos. Aliás, nem eles sabiam direito como isso começava. Numa hora, estavam falando da seleção brasileira ou de política, e, subitamente, surgia na mesa uma lembrança, uma história, uma ex-namorada, uma partida de futebol contra a turma da rua de cima, sempre dançando entre os copos e os potinhos de amendoim, e pedindo para virar assunto.

Foi o Marcelo quem começou, aproveitando um daqueles raros momentos de silêncio na mesa, quando todos pareciam pensar em algo (provavelmente na mesma coisa), mas não tinham coragem de jogar o assunto na frente dos outros.

– Sabe do que eu me lembro? Do meu primeiro natal. Eu devia ter uns 3 anos, sei lá. Sei que eu nem estava na escola ainda. E me lembro da árvore toda enfeitada, das pessoas se abraçando, dos presentes... E eu não entendia o que era aquilo.

Todos assentiram em silêncio, olhando para o Marcelo. Menos o Grilo, que estava distraído com o decote da morena que estava com uma amiga na mesa ao lado.

– Natal... Natal é um negócio legal, mas só quando você é criança, respondeu Tomás. Depois que você cresce, perde toda a graça.

– Não, você não entendeu. Essa é a primeira coisa que eu lembro. Eu não me lembro nada antes disso. Oficialmente, dentro da minha cabeça, eu nasci naquele natal. Minha vida começou ali. Não me lembro o que ganhei nem o que comi naquela noite. Mas me lembro da cena, como se tivesse sido hoje. Como se tivesse sido agora mesmo, antes de vir para o bar.

– Não sei se eu consigo definir minha primeira lembrança. Não dá para ser tão exato assim.

– Claro que dá....basta você se esforçar.

– Bobagem. Aposto que tem coisas que a gente lembra, mas não lembra, entende?

– Quê? Você está bêbado.

– Não, senhor. Aliás, estou, mas como você está também, isso anula a minha bebedeira. Podemos discutir de igual para igual. É impossível você saber sua memória assim com tanta exatidão! A mente humana começa a se formar aos poucos e não assim...

– Cadê seu romantismo?, gritou Marcelo. Estamos falando da minha infância, não da mente humana! Deixe a mente humana fora do meu primeiro natal!

Antes de pensar na infância ou em alguma resposta, Tomás pediu outra cerveja. Ele e Marcelo sempre discutiam assim. Na adolescência, Marcelo escrevia poesia enquanto Tomás estudava para engenharia naval. Um era romântico, o outro era lógico. A única coisa em que concordavam é que Tomás sempre foi o melhor goleiro do bairro. Sempre foram opostos. Eram amigos, praticamente irmãos, mas sabiam-se diferentes em tudo.

Quando a cerveja chegou, todos encheram os copos, menos o Grilo, que continuava imerso nos seios da morena, completamente alheio ao mundo. Depois de dar o primeiro gole, Fernando, que até então só havia assistido a conversa, balbuciou:

– Brigadeiro.

– O quê? Você está louco. Ou bêbado. Aqui é um boteco, não é um buffet infantil. Você não vai arrumar um brigadeiro aqui. E fora que brigadeiro com cerveja deve ser uma merda.

– Não, essa é a primeira coisa que eu lembro. Brigadeiro.

– Mas isso não vale, brigadeiro é algo atemporal. Sua primeira memória não pode ser brigadeiro. Se você lembrasse do brigadeiro do seu aniversário de quatro anos é uma coisa, mas você não pode simplesmente chegar e dizer “brigadeiro”. Isso não é memória!, afirmou Tomás, vendo que Marcelo começava a ganhar um forte aliado, na forma de um doce infantil.

– Não importa. Toda vez que eu penso no tempo que eu era moleque, eu nem conhecia vocês ainda, me vem o gosto de brigadeiro na boca.

– Não, você deve lembrar de algum aniversário, ou algo assim. Brigadeiro é um doce, não é um fato, insistiu Tomás.

– Se o cara diz que é brigadeiro, é brigadeiro e pronto! A memória é dele, defendeu Marcelo, que não queria perder o seu único aliado na mesa de jeito nenhum.

Ainda olhando para o decote ao lado, o Grilo suspirou, mas ninguém deu atenção. Tomás acendeu um cigarro, e ficou olhando para os dois. Deu umas duas tragadas, sacudiu a cabeça e disse:

– Vocês estão de fogo.

– De fogo nada! No mínimo, sua primeira lembrança é imbecil demais e você não quer assumir! Deve ser um penico ou uma surra que você tomou na escola.

– Vai pro inferno você e o penico, estou falando sério! Marcelo, você não pode saber a sua primeira lembrança. O meu ponto é o seguinte: você pode até achar que essa seja a sua primeira lembrança, tanto faz se é um natal ou uma merda de brigadeiro, mas não necessariamente esta será a sua primeira lembrança. Talvez tenha outra que você não lembrou até agora, que ainda esteja guardada aí.

– Bom, arriscou o Fernando, se ele ainda não lembrou, então não é uma lembrança.

Tomás tentou responder, mas os risos do Marcelo não deixaram. Quando a gargalhada diminuiu, ele propôs um acordo:

– Tem alguém que ainda não se manifestou na mesa. O Grilo. Tenho certeza de que ele vai concordar comigo, e falar que vocês são dois bêbados que tentam ver romantismo em tudo. Primeira lembrança... Rá! Isso é coisa de diário de menina, não é coisa de homem.

– Vamos ver, então!, desafiou Fernando, que já tinha se tornado um dos maiores defensores da causa. Grilo, qual sua primeira lembrança? A primeira coisa que você lembra da vida?

– Corrigindo, interrompeu Tomás, existe alguma coisa que você acha que possa ser a sua primeira lembrança?

Silêncio. Todos olharam para o Grilo, que continuava olhando a morena. Subitamente, ele se voltou para os amigos, e suas mãos tatearam o bolso da camisa. Levou um cigarro à boca, acendeu e olhando para o chão, respondeu baixinho:

– Brasil e Itália. Copa de 82. Me lembro dos três gols do Paolo Rossi. Nitidamente.

Todos abaixaram os olhos em respeito. Até mesmo o Tomás. Não era justo um cara legal como o Grilo ter que viver com uma memória dessas na vida. Merda de Copa. Merda de vida. Todos eles perceberam que a partir daquele momento, as coisas seriam diferentes. O Grilo seria visto pelos amigos como uma pessoa que sofreu mais do que merecia na vida. Um herói, um cara que carregava um fardo desses em silêncio. A partir dessa noite, quando o Grilo não estivesse presente, algum deles ia, de vez em quando soltar um “e o Grilo, hein?” na mesa e os outros fariam um silêncio respeitoso. A partir desse momento, o Grilo deixou de ser apenas um amigo e tornou-se um mártir entre eles. Um sujeito que sabia sofrer calado, com elegância. A partir dessa noite, eles diriam entre si que o Grilo, sim, sempre foi homem de verdade! O Grilo sempre foi um exemplo!

Mas foi o Tomás que, em respeito à dor que se instalara na mesa como um penetra, sugeriu:

– Vamos mudar de assunto?

3 leitores:

Mariliza Silva disse...

Vou parar de rebuscar minha memória... acabei de lembrar que não lembro qual é minha primeira lembrança...credo!

Será que é fácil assim, será que tem jeito de ser objetivo? Ou nossa memória é mais subjetiva. O passado é subjetivo. O presente objetivo. e o futuro...suposições jogadas no ar!

Ihhh, fiquei doida!rsrsrs

Beijão e some não
Mariliza

Duda disse...

post simples e mt bom..
uma das minhas primeiras lembranças é um garoto mastigar umas bem pedras pequenas, mas isso eu não sei se foi lembrança inventada.
abraços!

Isadora A. disse...

A minha memória é tão ruim, que a minha 'primeira lembrança' é só de quando eu tinha 5 anos...

1994, eu ainda acordava cedo, meu pai estava chorando na cozinha, e eu nunca tinha visto meu pai chorar. Eu perguntei pra minha mãe, e ela pediu pra eu sair da cozinha pq eles estavam tristes, acompanhando o acidente do Senna na televisão.
Eu perguntei quem era o Senna, e ela respondeu que 'era o moço que andava de carro'. Daí eu perguntei se ele era amigo do papai, pq papai estava chorando. E minha mãe respondeu que ele era amigo de todo o mundo.
Eu fui até a escada de carpete que subia pros quartos do sobradinho de recém-casados, pequenininho, e fiquei vendo o sol brincar na janela de vitral, rosa, azul, verde... e eu chorei. Porque afinal de contas, o Senna era amigo de todo o mundo. Logo, devia ser meu amigo também.

 

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