20 de fevereiro de 2007

Norte - Sul

Ninguém viu os dois encostados na parede da estação.

Abraçados, olhavam-se em silêncio. Dezenas de pessoas passavam por eles, indo e vindo, mal reparando nos dois ali, anônimos, sozinhos, escondidos no meio da multidão. Logo ali, num canto que eles provavelmente elegeram como lar por alguns minutos. Ninguém os via, e eles só enxergavam um ao outro. Nada mais existia. Nem o vendedor atrasado para o jantar, nem a mulher maldizendo a vida com três crianças a tiracolo, nem o aposentado que tentava encaixar a última vertical das palavras cruzadas, nem o grupo de jovens que passava tentando marcar seu território com gritos. Nada os atingia.

Nesse silêncio ruidoso, ele sorriu para ela e ela sorriu de volta.

Ninguém viu.

Ninguém viu darem-se as mãos , conversando com os olhos. Ninguém além deles entenderia uma palavra dita naquele silêncio. Estavam falando um idioma próprio, que, naquele momento, apenas os dois dominavam. Invisíveis ao resto do mundo, enxergavam apenas um ao outro e se entendiam pelo brilho dos olhos. Ela sussurrou alguma coisa e ele a abraçou, fazendo com que ela enterrasse o rosto no peito dele. Ele a protegeu da multidão invisível que os ignorava totalmente colocando a mão na cabeça dela e respirando fundo.

Ela, por baixo dos cabelos, sorriu todo aquele amor e ele sorriu a felicidade inteira de volta.

Ninguém viu.

Ninguém viu quando, em silêncio, decidiram que era hora de olhar nos olhos e afastaram o corpo um do outro. Ele, encostado na parede; ela, em pé com uma bolsa laranja. Um alto-falante do metrô gritou um aviso qualquer. Ela assustou com o barulho. Ele caiu na risada. Ela caiu na risada. Um casal atrapalhado com a bagagem passou por eles. Ela nem viu. Ele mal olhou. Ele segurou a mão dela e se beijaram. Ela ameaçou ir embora, meio chorando, meio sorrindo, e ele a puxou de volta. Ele a olhou nos olhos.

Ela sorriu um sorriso triste e ele sorriu solitário de volta.

Ninguém viu.

Ninguém viu quando o vento, teimoso, cismou de brincar ao redor, fazendo uma mecha de cabelo dela cair no rosto. Ele arrumou, com cuidado, como se ela fosse de papel. O cabelo caiu de novo e ela apertou os olhos dizendo você-nunca-consegue-arrumar-meu-cabelo. Uma mulher passou pela catraca brigando com o segurança. E eles, em silêncio, brigavam com todas suas forças. Ela maldizia o relógio que insistia que era hora de ir embora. Ele discutia com os lábios que não conseguiam soltar os dela. Ela ameaçou ir embora, mas voltou e o abraçou. Ele sorriu um você-precisa-ir para ela e ela sorriu um eu-sei de volta.

Ninguém viu.

Ninguém viu a hora que uma lágrima rolou pelo rosto dela, e os olhos dele pediram para que ela não chorasse. Ela não conseguiu. Ele pediu um sorriso e a lágrima desapareceu na pele dela. O barulho na estação era insuportável, mas eles ouviam apenas o coração do outro. O corpo dela tentou fugir, mas ele não deixou, e ela agradeceu com um abraço. A boca dele tentou fugir da dela para sorrir uma última vez, mas quem disse que ela deixou? Ela ameaçou chorar de novo como se sua vida estivesse acabando. Ele a impediu como se sua vida dependesse disso. Suas mãos finalmente se largaram em meio ao barulho da estação, e ela abaixou os olhos. Ele a olhou pela primeira vez como sempre fazia.

Ela sorriu para ganhar forças, ele sorriu de volta para lhe dar coragem.

Ninguém viu.

Ninguém viu quando ela se afastou em direção a catraca. Um novo trem chegou, e, com ele, nova multidão. Ele não agüentou, puxou o corpo dela de volta e lhe deu mais um beijo. Prometeu que era o último. Ela ameaçou ficar, mas o relógio não deixou. Ele sorriu e a soltou. Ela passou pela catraca, mais uma na multidão. Ele não tirou os olhos dela, mas um na multidão. Ela caminhou pela estação, sorrindo e chorando, e ele a seguiu com os olhos. Ela arrumou o cabelo e ele sorriu, sabendo que nunca conseguiria arrumar daquele jeito. Ela foi sumindo entre as pessoas. Ele, parado no meio do caminho da multidão, foi sumindo em sim mesmo.

Quase na porta da estação, ela se virou e sorriu uma última vez, e ele sorriu de volta, pela última vez naquele dia.

Ninguém viu.

Somente eles. E bastava.

7 leitores:

L. Inafuko disse...

lindo...
puxa, realmente estou sem palavras
acho que toda essa situação lembra muito as despedidas intermináveis entre eu e meu namorado XD

Mariliza Silva disse...

Pode parecer piegas dizer isso... mas já passei exatamente por um momento desse, umas 2 vezes no mesmo relacionamento... e ninguém viu...

Lindo. Para mim foi muito gratificante ler esta crônica pois quando eu quiser descrever o que senti nos meus momentos de rodoviária, virei aqui e vou ler novamente revivendo o momento.

Beijão e some não, viu!

Mariliza

Mão Branca disse...

Vc escreve bem, mas a net não é lugar de textos tão grandes.
[]s

V disse...

Nossa, lindo o texto....

Você escreve muito bem...adoro tanto o Championship Chronicles como o Vinyl.Parabéns!

Daniela disse...

Rob,

Escreva um livro! Seus textos são maravilhosos!
A cada vez que leio me surpreendo com algo!
Você é ótimo!

Dani. disse...

Aiai.. maravilhoso...

Despedidas de amor são sempre dolorosas, mesmo quando se sabe que o reencontro é logo ali, no final do dia.

Besos.

Lara disse...

acontece quando a gente está a pouco mais de duas horas de distância e mesmo assim só pode se ver poucas vezes dentro de um ano. falando uma língua que é, definitivamente, só nossa, naquele mundo de 'r', 'sch'. ninguém nos entendia e só éramos nós dois, independente de quanta gente tinha ao lado. porque um olhar encontrava certos olhos pequenos e assim, só assim, um bastava ao outro. ainda me lembro da minha primeira despedida em uma estação de trem, esperando até que eu estivesse dentro da cabine para chorar de verdade, pela saudade que ainda me atacaria. e aperta o coração.

 

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