24 de fevereiro de 2015

A Maritaca que se Perdeu...

Eu não sei onde eles estão.

Eu olho para todos os lados e não sei onde eles estão. E eles estavam ao meu lado agora mesmo. Estávamos todos naquela árvore, e eu ouvia suas vozes, cantando como sempre cantam. Alguns falavam comigo. Outros falavam entre si. Como sempre fazemos.

Lembro que estávamos discutindo onde nos abrigar da chuva. Alguém falou no telhado da igreja. Eu conheço a igreja, mas daqui não consigo vê-la. Não sei nem para qual lado ela fica. Talvez eles estejam lá. Talvez tenham ido para outro lugar.

Eu não sei. Estava distraído com uma casca da árvore e um inseto. Voei para um galho, voei para o outro. E de repente, o silêncio. De repente, todos haviam desaparecido.

De repente, eu estava sozinha.

Não havia mais o verde delas, somente o verde da árvore. E a árvore não canta, não conversa, não consegue apontar para qual lado eles voaram, mesmo se eu pedir chorando, como eu fiz. A árvore não fala. A árvore não ouve. E estou com medo de que ninguém esteja ouvindo.

Tentei vencer o medo e fiz o que sempre me ensinaram. Vim para um lugar alto e estou chamando por eles. Outros que se perderam fizeram isso e deu certo. Mas em alguns casos não funcionou. Nunca mais vimos. Tem que funcionar. Estou com medo de não funcionar. Tem que funcionar.

Minha garganta está começando a doer, não estou acostumado a cantar tão alto. Por que eles não aparecem? Eu preciso de um pouco de água. Tem água na rua, mas não vou descer até lá. Morro de medo de ir lá embaixo, com pessoas andando e carros cuspindo fumaça. Lá embaixo tudo é muito apertado e todos são muito grandes. Eu estou com medo, mas tenho mais medo de descer. Especialmente sem eles comigo.

Tem uma pessoa olhando para cá. É um homem, está parado na rua. Está olhando para mim, deve ter escutado meu chamado. Por que eles não ouvem? Onde eles estão? Será que eles estão bem? Será que me esqueceram? Será que desistiram de mim? Eu não queria que o homem tivesse escutado, eu queria que eles tivessem escutado. Qualquer um deles.

Vai chover. Vai chover e eu não sei o que fazer. Eu não sei direito onde estou, e não sei onde eles estão. Vai chover e eu preciso procurar abrigo, e talvez o abrigo seja ainda mais longe deles. Se não chovesse, eu poderia esperar aqui para sempre. Mas vai chover e eu preciso ir embora. Eu não gosto de chuva. Eu não gosto de ficar molhado porque posso ficar doente. E se ficar doente, eu não consigo ajudar meu bando.

Eu preciso do meu bando.

O homem foi embora. Foi embora como meu bando. Provavelmente, ele estava olhando apenas por curiosidade para mim. Deve ter achado meu canto bonito. Ele não sabe o quanto meu canto soa triste quando é cantado sozinho. Porque eu preciso do meu bando para cantar alegre. Com meu bando, sou eu mesmo. Sozinho, sou uma presa, sem rumo e sem lar. Talvez se eu for até aquele telhado... Talvez eu consiga ver algo. Se ao menos eu soubesse para que lado eles foram...

Vai chover.

Vai chover e eu nunca senti tanto medo.


(Agora que você leu este texto, peço que leia este aqui)

1 leitores:

Adriano T. disse...

"Com meu bando, sou eu mesmo. Sozinho, sou uma presa, sem rumo e sem lar."

Concordei.

 

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