27 de janeiro de 2015

O Dia que a Internet Foi ao Bar

Eram quatro amigos que se reuniam sempre no mesmo bar há anos. Faziam isso desde o tempo da faculdade, e já tinham até mesmo uma mesa cativa, pois o dono do bar sabia que toda terça-feira eles apareceriam ali ao final do dia e ficariam bebendo, rindo e conversando até o bar fechar.

E na terça-feira em que se passa esse texto, tudo foi quase igual às outras terças-feiras. “Quase”, porque desta vez eram cinco pessoas. Pois o Leandro – que era sempre o último a chegar – havia aparecido com um amigo que ninguém conhecia.

“Pessoal, desculpe o atraso. Esse aqui é Internet”.

Todos olharam para o sujeito – que parecia um cara normal, como eles – tentando entender a origem do apelido.

“Você trabalha com internet?”, perguntou Rafael.

Leandro se apressou a explicar. “Não, não. Ele é a internet. Mesmo.”

Rafael pensou por alguns instantes em alguma forma de fazer sua próxima observação não soar ridícula. Mas depois de um tempo desistiu e disse apenas que “Mas a internet não é uma pessoa”, devolveu Rafael.

“E, mesmo se fosse, por que ela estaria justamente andando com o Leandro?”, completou Marcio.

“É a Internet, sim”, explicou Leandro. “Eu estava vindo para cá e ele me abordou perguntando se eu estava vindo para o bar. Eu disse que sim e ele perguntou se poderia vir junto. Quando ele me explicou que ele é a internet, achei interessante trazê-lo para cá. E aqui estamos”.

Todos olharam para Internet, que já estava sentado na mesa, aparentemente não prestando atenção em nada. Tirou um celular do bolso e bateu uma foto do bar, digitando a legenda “Começando os trabalhos”. Quando terminou de postar, olhou para as outras pessoas na mesa e pediu desculpas. “Pronto. Estava só postando uma foto. Depois marco vocês.”

Ninguém respondeu nada. Na verdade, o único que esboçou alguma reação foi o Ricardo, que pediu mais cervejas.

“Você é a internet mesmo?” perguntou Marcio.

“Isso. Muito prazer”.

“Mas a Internet é uma pessoa?”

“Bem, eu estou aqui, não estou?”, respondeu a internet, enchendo um copo. “Não tem cerveja importada no bar? A fotografia fica mais legal”.

“Não, a gente bebe essa mesmo”, explicou Leandro, quase como pedindo desculpas. Afinal, a Internet era o seu convidado.

“Tudo bem”, devolveu Internet, dando um gole na cerveja. “Sobre o que vocês estavam falando quando eu cheguei?”

“Não lembro. Acho que era sobre trabalho”, explicou Marcio.

“Mas vocês estavam reclamando, certo?”

“Como assim?”

“Não se pode falar do trabalho sem reclamar. É preciso reclamar do trabalho o dia inteiro, sempre deixando claro como nada dá certo por causa da incompetência dos outros, ou sobre o chefe pede coisas impossíveis”.

“Na verdade”, disse Ricardo, “estávamos comentando sobre o Rafael ter sido promovido”.

“Ah, você foi promovido? Parabéns!”, disse a Internet, levantando o copo como se ensaiasse um brinde. “Você já fez seu discurso?”

“Discurso?”, perguntou Rafael.

“Isso. Quando acontece algo bom na sua vida, como é o seu caso, você precisa fazer um discurso, dizendo o quanto isso é importante para você e é fruto do seu trabalho, o quanto isso vai fazer você crescer, e agradecendo a todos que ficaram do seu lado até que isso acontecesse. Não se esqueça de usar a palavra ‘aprendizado’, todo mundo adora isso.”

“Não”, justificou-se Rafael. “Eu estava apenas comentando que vou ter que viajar mais”.

“Coloque isso também”, devolveu a internet. “Aliás, é perfeito. Coloque que a saudade de casa vai se justificar com o aprendizado que você terá na sua vida. Use o termo novas conquistas também. As pessoas vão adorar.”

Todos ficaram em silêncio tentando compreender o que Internet estava falando, mas ele já estava olhando ao redor, estudando as outras mesas do bar. De repente, abriu um sorriso.

“O que foi?”, perguntou Leandro.

“Estou procurando alguém para crucificar. Não podemos conversar sem um vilão. E achei o alvo perfeito. Aquele cara ali, com a loura de vermelho”.

“Aquele de óculos?”

“Isso. Ele acabou de voltar do banheiro e, enquanto voltava para a mesa, olhou para aquela ruiva de minissaia que está em pé no balcão do bar. A loira que está com ele não percebeu, mas eu percebi. Vou até ali, só um minuto.”

Todos observaram quando a Internet foi até a mesa e sentou-se ao lado do sujeito. O bar inteiro ouviu quando ela começou a esbravejar sobre sexismo, sobre falta de respeito, sobre traição. Em um momento apontou o dedo na cara do sujeito e disse a ele que era um lixo humano e digno de desprezo. Tanto o sujeito como a loira pareciam morrer de vergonha, mas a Internet não descansou até fazer o sujeito ficar com lágrimas nos olhos. Só então a Internet se levantou, pediu uma salva de palmas em nome da justiça falando com todas as outras pessoas do bar e voltou para a mesa.

“Desculpem. Espero não ter perdido o seu discurso sobre a promoção”.

“Não...”, disse Rafael. “Na verdade, eu estava apenas olhando você na outra mesa”.

“Ah, sim. Coisas assim não podem passar batidas. Precisam ser justiçadas.”

“Mas o cara fez algo errado?”

“Bem, acho que isso não faz mais diferença, certo? A voz da internet é a voz do povo, e a voz do povo é a voz de Deus. Se ele tinha feito algo errado ou não, não importa. Se ele tinha algo errado, agora ele aprendeu a lição. Se ele não tinha feito nada errado, agora o mundo inteiro acha que ele errou, então ele está errado. Logo, ele aprendeu a lição do mesmo jeito”.

“Mas você disse que ele olhou para a ruiva?”

“Isso.”

“Eles estão juntos. Aquela ruiva é a esposa dele.”

 “Não se preocupem. Se eu ficar cinco minutos sem olhar para ele, tudo será esquecido”, disse a Internet. “Sobre o que vamos falar agora?”

“Que tal política?”

“Boa. Eu adoro o assunto.”

“Nós três adoramos o assunto também”, disse Ricardo.

"Então eu odeio e acho inútil.", devolveu Internet.

"Como assim? Você acabou de falar que gostava..."

"Desculpe, é um velho hábito. Sempre que a maioria das pessoas não gosta de um assunto, eu adoro e digo que as pessoas são burras por não se interessarem por aquilo. Mas se todos gostam, eu detesto e faço questão de repetir o tempo inteiro o quanto ele é banal e as pessoas não deviam perder tempo com ele. às vezes faço isso até mesmo sem perceber."

"Bem, vamos falar sobre política", disse Marcio. 

“PT ou PSDB?”, interrompeu Internet, apontando o dedo para Ricardo.

“PT.”

“Sim, porque é conivente com a corrupção. Você tem medo de reconhecer que está errado, de que sempre esteve errado em seu fanatismo, e tenta justificar os roubos do governo petralha feito um idiota manipulado. E você?”, era a vez de Rafael.

“PSDB.”

“Classe média. Coxinha. Morre de medo de abrir mão de suas posses, tem pesadelos simplesmente ao ver um pobre andando pela rua. Não tem água na sua casa, mas mesmo assim você continua justificando seu voto dizendo que somente quem trabalha merece ser recompensado, e que ao mesmo tempo todo pobre é vagabundo".

“Eu não sou nem um, nem outro”, disse Márcio.

“Então não vale nem a pena falar com você. Você é omisso. Aprenda uma coisa. Quando eu estou presente, existem apenas dois lados. Isso vale para qualquer assunto. Se você não escolhe algum deles, você é omisso. E se é omisso, é irrelevante.”

“Desisto. Vamos falar de outra coisa”, disse Ricardo.

“Que tal futebol?”, sugeriu Marcio.

“GOL! GOOOOL! CARALHO! CHUPA! TÔ CHORANDO AQUI! GOL! PUTA QUE PARIU!”, gritou Internet, levantando-se da mesa e balançando os braços, fazendo o bar inteiro olhar para ele.

“O que você está fazendo? Nem jogo tem hoje.”

“Não importa. Eu sou a internet. Para mim, é mais importante as pessoas saberem o meu time do que torcer por ele. Eu preciso ser o mais sofredor, eu preciso ser o que mais vibra. Eu preciso amar o meu time mais que qualquer outra pessoa. O amor que eu mostro pelo meu time é mais importante que o meu amor pelo time.”

 “Mas isso não faz o menor sentido”, disse Leandro.

“Estou com fome”, disse a Internet, ignorando o comentário. “O que tem para comer aqui? O que é isso no cardápio? Batatinhas cremosas”.

“É um negócio que o cara do bar faz”, explicou Marcio. “São batatas com requeijão”.

“Pô, nunca vi isso em nenhum lugar. É bom?”

“Mais ou menos. Parece melhor do que é.”

“Mas o que importa é que eu nunca vi isso em lugar algum. Vou querer. Aliás, todos vão querer”. Disse isso e chamou o garçom. “Traga uma porção de batatinhas cremosas. Para todas as mesas.”

“Como assim?”, perguntou o garçom.

“Uma porção para cada mesa. E diga às pessoas que elas devem tirar fotos do prato e colocar que finalmente estão experimentando as batatinhas cremosas.”

“Eu nem sei se tem tudo isso de batata”, disse o garçom. Internet estava ignorando de novo, e já havia voltado a falar com Leandro, Rafael e Ricardo. “Vocês também, tirem fotos com a batata cremosa. As pessoas precisam ver que estamos comendo isso. Alguém aqui tem um pau de selfie?”

“Eu acho isso ridículo”, disse Rafael.

“Eu também. Mas se todo mundo tem, a gente precisa usar. A gente falar que estamos usando ‘só pela zoeira’ e pronto”, explicou Internet. “Aliás, precisamos de uma foto nossa”.

Levantou-se e tirou uma selfie da mesa. Ao fundo, Leandro olhava constrangido, Rafael fingia que não era com ele e Ricardo observava o próprio copo, provavelmente torcendo para aquilo acabar logo. Internet postou a foto – com uma legenda que dizia algo sobre “mais de dez anos de amizade” ou algo assim – e não se sentou.

“Pronto. Agora vou embora. Tenho um show para ir”.

“Show? De que banda?”

“Faz diferença? O que importa é que é o show mais importante do mês, e eu preciso tirar fotos minhas lá”.

“Mas você não vai esperar as batatas?”

“Não. Nem de batata eu gosto, na verdade.”

“Mas você pediu essa merda. Fez todo mundo no bar comer isso.”

“Você não entende. Não é questão de batata, é questão de estilo de vida. Isso importa mais que batata.”

“Soa meio imbecil”, resmungou Rafael.

“Cuidado. Eu posso destruir a sua vida. Se eu quiser, todas as pessoas vão falar mal de você em qualquer lugar que eu for.”

Neste momento, todas as pessoas nas outras mesas começaram a falar mal de Rafael. Xingavam e vaiavam – alguns apenas cochichavam, mas Rafael tinha certeza que era sobre ele.

E Internet foi embora. No momento que saiu do bar, todas as pessoas se calaram e aparentemente se esqueceram de Rafael. Os amigos não entenderam o motivo – porque a Internet havia acabado de ir embora, e é preciso passar um tempo longe dela para entender que, quando a Internet está presente, as pessoas falam apenas sobre assuntos que importam somente para a Internet – mas se sentiram aliviados.

 “Desculpe, mas não tem mais batata”, disse o garçom, se aproximando da mesa.

“Foda-se, ninguém quer essa merda. Traz mais cerveja.”, disparou Marcio.

7 leitores:

Gharcia disse...

Eu acho que conheço algumas pessoas que gostariam de ler este texto e refletir.
Como não tenho mais fb nem tw vai ficar aqui nos meus feeds. Só pra pessoa q eu gosto.
Grato pelos textos.

Elise disse...

Genial, Rob. Sintetizou tudo!

Até fiquei com vergonha de ter postado esses dias uma foto com uma legenda sobre os anos de amizade com minha turma do ginásio, mas como não costumo fazer isso, acho que tô perdoada... :P

Cesar da Mota Marcondes Pereira disse...

Síntese dos dias de hoje no meio virtual ;)

Curti demais, Rob!
Forte abraço!

sos hollywood disse...

Muito ruim, você não gosta da Internet e fica aí falando mal de quem gosta! Seu frustrado! Se soubesse escrever, seus livros apareceriam na novela!

Adriano T. disse...

Eu preciso seguir esse cara! É @internet?

Gharcia disse...

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Fagner Franco disse...

Por algum motivo do além, acabo frequentando menos isso aqui (sou mais assíduo no Vinyl). Que bom que vim aqui. Excelente.

Tu comentou em algum lugar, que você está irrelevante na Internet... tu sabe que é ela que é lotada de muita gente irrelevante.

Em defesa da Internet (assim como defendo, por exemplo, algumas religiões e outros "coletivos"), só digo que nem é tão culpa dela. O problema da Internet é ela ser utilizada por... gente.

 

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