11 de julho de 2014

Débora e a Alemanha

Este texto é o sexto (e penúltimo) de uma série. A ideia – ambiciosa e sugerida pelo leitor @cmmarcondes – é desenvolver este conto conforme o Brasil avança na Copa. A cada jogo do Brasil, a história ganha um novo desenrolar que se passa durante os jogos, refletindo o desempenho da seleção e influenciando o destino dos personagens. Os capítulos são sempre postados antes do jogo seguinte.

 Aqui estão os anteriores:




No terceiro gol eu saí do bar.

Na verdade, não lembro nem de ter me levantado ou caminhado até a calçada. Eu estava em choque. Quando dei por mim, estava sentado no meio-fio. Eu havia me tornado uma criança usando uma camisa amarela e que não sabia para onde ir. Uma criança que não sequer encontrava forças para chorar.

Talvez para me esconder do que estava acontecendo – ou por causa da sensação de que o mundo inteiro estava olhando para mim naquele momento – eu enterrei o rosto nas mãos. Minutos depois, eu descobri que aquele esconderijo não adiantaria nada. A Alemanha fez o quarto gol e o Batata saiu do bar e se sentou ao meu lado.

– Você tá legal?

Eu não consegui responder.

Eu sempre encarei as derrotas do Brasil em Copas do Mundo como alguns dos momentos mais doloridos da minha vida. Acho que todos que realmente gostam de futebol se sentem assim. As pessoas que torcem somente em Copa do Mundo normalmente xingam o time, xingam o técnico, xingam o adversário pelo fracasso, mas continuam com suas vidas. O verdadeiro torcedor sabe que as derrotas mais doloridas são aquelas que vão lhe acompanhar pelo resto da vida.

E, quando eu sentei na calçada, eu já sabia disso. O jogo contra a Alemanha iria me assombrar pelo resto da vida. Daqui a décadas, as pessoas me perguntariam o que aconteceu naquele dia, onde eu vi o jogo, como eu me senti vendo o Brasil tomar quatro gols em menos de vinte e cinco minutos. Numa semifinal de Copa. Jogando em casa.

 Dois ou três gritos no bar entregaram que a Alemanha havia marcado mais um.

Cinco a zero.

– Eu vou embora.

Eu não pensei antes de falar. Apenas respondi a primeira coisa que me veio à cabeça, como se o fato de eu finalmente falar alguma coisa fizesse o Brasil parar de tomar gols. Como se eu precisasse fazer algo porque o que estava acontecendo no Mineirão era culpa minha.

Não era. Não era culpa minha.

Mas talvez a decepção que eu sentia fosse.

Batata se ofereceu para ir comigo, mas eu preferia ficar sozinho. Eu preferia ficar em silêncio. Ao contrário que os livros de autoajuda pregam, nem toda dor desaparece quando você resolve falar sobre ela. Além disso, o que eu iria falar? Sobre a tática do time? Sobre a escalação? Sobre o fato de que daqui a quatro anos teremos outra Copa e que vai ser diferente porque nós sempre nos agarramos a isso quando o Brasil é eliminado?

Não. Eu queria fica sozinho com meus cinco gols tomados em menos de trinta minutos enquanto o mundo inteiro assistia. Assim, me despedi do Batata e saí andando pela rua, meio sem saber para que direção seguir.

Logo eu percebi que não era o único. Diversas pessoas estavam na rua. Andavam sozinhas ou, às vezes, em pares. Todas elas em silêncio, com olhar perdido. Havíamos nos tornado um país de mortos vivos. As pessoas caminhavam sem rumo, sem propósito, tentando apenas não conseguir escapar de alguma coisa que parecia estar em todo o lugar.

E eu tive a certeza de que havia sido a mesma coisa em 1950, mesmo sem saber direito como foi em 1950. Talvez eu tenha sorrido de forma amarga ao perceber que a maior tragédia da história da seleção brasileira – aquele que nós víamos os mais velhos evitando conversar a respeito e a imprensa esportiva pregando que era algo que deveria ser evitado a qualquer custo – havia finalmente sido superado.

O famoso “maior vexame da seleção brasileira” estava no passado, porque o maior vexame da seleção brasileira estava acontecendo agora.

Mas, ao contrário de 1950, foi escolha nossa acreditar no time de 2014. Até onde eu sei, o time de 1950 era excelente: a derrota havia sido uma fatalidade, aquilo que (os vencedores) apontam como “a magia do futebol”. O time de hoje não era bom. Nós sabíamos disso, mas resolvemos apostar todas as nossas fichas nele por um único motivo: era o único time que tínhamos.

Talvez daqui a décadas as pessoas achem que o placar foi atípico, um acidente. Não foi. Levar cinco gols no primeiro tempo foi o preço que pagamos – ou, ao menos, que eu paguei – em me esforçar para acreditar num time que não merecia isso. Os sinais estavam todos claros, desde o gol contra com poucos minutos de Copa até à contusão de Neymar, tudo indicava que a Copa não era nossa. E, mesmo assim, nós fizemos questão de acreditar.

Foram cinco jogos nos quais o time não jogou bem. Às vezes, ameaçava decolar, mas logo voltava ao chão de forma atrapalhada. O tal canarinho era um pássaro ferido que não conseguia mais voar, e nós estávamos observando tudo certo de que ele iria voar no próximo instante.

Enquanto eu andava, o número de pessoas na rua cresceu. Provavelmente, o primeiro tempo havia acabado. Provavelmente, já estava uns vinte a zero. Vi algumas pessoas saindo de suas casas e dos prédios – todos ainda com camisas verdes, amarelas e azuis e as malditas cinco estrelas nas quais depositamos a certeza de que tudo sempre vai dar certo – mas não tive coragem de perguntar o placar, de querer saber o que estava acontecendo.

Mesmo porque eu havia percebido que estava andando pela rua que a Débora morava.

Não sei como havia chegado até ali. Eu estava andando pelo bairro sem saber para onde ia...

Não. Mentira. Eu saí do bar em busca da Débora. Andei pelo bairro evitando a rua dela de propósito somente para jogar comigo mesmo. Mas desde que eu comecei a andar sabia que estava vindo para cá.

Não somente para a rua dela, mas para o prédio em que ela morava.

Fazia dias que minha mente andava na frente do prédio da Débora pelo menos umas quatro vezes por dia. Na verdade, desde o final do jogo contra a Colômbia, quando o garçom me entregou um bilhete com a letra dela, eu vivia mais tempo me imaginando aqui na frente do prédio que no mundo real.

Sem saber ao certo o motivo disso, sentei do outro lado da rua, num pequeno canteiro, e apoiei as costas em uma árvore. Era um ótimo lugar. Dali, eu poderia ver quem entrasse ou saísse do prédio, mas as pessoas do prédio só me enxergariam ali se olhassem diretamente para mim.

O problema é que eu não fazia ideia do motivo de estar ali. O que eu iria fazer se a Débora aparecesse? O que eu iria fazer se a Débora aparecesse com aquele imbecil do namorado dela? O que a Débora pensaria se saísse do prédio e me visse ali, sentado na calçada do outro lado da rua, com cara de quem levou cinco gols no primeiro tempo de uma semifinal de Copa e sem saber explicar o que estava fazendo ali ou sequer como chegou até ali?

Sem encontrar respostas, resolvi me refugiar na única resposta que tinha. Abri a carteira e puxei o bilhete da Débora que estava escondido ali. Desdobrei o papelzinho com cuidado e reli a mensagem escrita em duas cores.

E me senti como se o jogo contra a Alemanha ainda não tivesse nem começado.

Tudo o que eu havia feito nos últimos dias era reler o bilhete da Débora e imaginar como seria o jogo contra a Alemanha – ou melhor, imaginar se eu encontraria com ela no jogo contra a Alemanha.

Eu havia feito isso todos os dias. Passava horas relendo o bilhete e tentando entender o significado dele, como se, ao olhar para aquele pedacinho de papel por tempo suficiente eu iria descobrir uma mensagem secreta escondida ali. Era como uma charada que eu não sabia resolver, mas estava convencido que ela se resolveria sozinha, quase que por mágica, se eu lesse e relesse e relesse e relesse e relesse o bilhete.

O problema era que eu não sabia se o bilhete era um “que bom reencontrar você” ou um “adeus”. E quanto mais eu relia, mais cara de “quem bom reencontrar você” ele tinha. E quanto mais eu pensava sobre ele, mais cara de “adeus” ele ganhava.

Quando eu me cansava disso, guardava o bilhete de volta na carteira – dobrado e escondido atrás da foto dos meus pais – e passava o dia inventando motivos para não vir ao prédio dela, e me achando um idiota por ter passado a madrugada anterior deitado na cama e pensado em todos os motivos possíveis – inclusive os ridículos – para vir ao prédio dela.

Olhei para a janela da Débora. Eu não precisei nem contar os andares, eu sabia de cor onde ficava a janela do quarto dela. Quando namorávamos, sempre que eu ia embora daqui, parava no meio da rua, me virava para o prédio e acenava me despedindo. Ela sempre estava na janela e acenava de volta. Era uma espécie de brincadeira nossa, que nunca foi sequer combinada. Um dia ela apenas estava ali me olhando ir embora e acenou de volta. Desde em diante, ela sempre estava ali acenando de volta.

Menos no último dia. No último dia, me virei com os olhos cheios de lágrimas e a janela estava fechada. E menos hoje. A janela estava fechada. Provavelmente, a Débora não estava em casa. Provavelmente, a Débora estava na casa do namorado dela. Provavelmente, ela nem lembrava mais que eu existia.

Provavelmente, o bilhete era um “adeus” mesmo.

Comecei a me sentir um idiota. Aliás, eu não me sentia como um idiota qualquer, eu me sentia como um idiota que se deixou enganar. Um idiota que acreditou que aquele time podia ganhar alguma coisa. Um idiota que acreditou que havia encontrado a ex-namorada por destino, e não porque nós morávamos no mesmo bairro. Eu era um idiota que havia levado quatro gols em menos de dez minutos. Eu era um idiota bem especial, um idiota daqueles que os outros idiotas admiram de longe, se perguntando “como ele consegue ser tão idiota assim?”.

– Desistiu do jogo?

Com um susto, olhei para trás na direção da voz. Se isto fosse uma comédia romântica daquelas que a Débora adorava, seria ela ali, vindo me confortar. Teria brigado com o namorado ao descobrir que sou o homem da vida dela, e estaria atrás de mim pelo bairro. Uma música começaria a tocar. Eu e a Débora conversaríamos comente com o olhar, e nos beijaríamos, nos abraçaríamos, e prometeríamos... Não, nada de promessas. Eu soltaria uma piadinha e ela sorriria, e iríamos embora para minha casa, para sempre. Acendem as luzes e as pessoas vão embora do cinema desejando viver um amor desses.

Mas não era um filme. Não era a Débora. Mesmo porque a voz era de homem. Não era a Débora, era pior.

Era o pai dela.

Não era uma comédia romântica. Era uma tragédia com contornos de humor negro.

Guardei o bilhete rapidamente na carteira – será que ele conseguiu reparar que a letra era da filha dele? – e me levantei, sem saber ao certo o que falar. Ele continuou:

– Eu também desisti. Desisti no quarto gol e saí de casa. Fui andar pelo bairro, mas calculei mal e voltei cedo demais.

– O jogo ainda não acabou?, perguntei, sentindo minha voz raspar a garganta.

– Não. Eu vi as pessoas numa outra casa comentando que está no segundo tempo. Não quero voltar para casa antes de acabar.

Eu fiquei em silêncio. Não sabia se devia começar a me explicar sobre porque eu estava sentado na frente do prédio dele, ou se eu perguntava a ele como o time deveria ter sido escalado. O pai da Débora sempre gostou de futebol, e eu adorava conversar sobre futebol com ele. Ainda bem que ele viu que eu não sabia direito como reagir e fez o que qualquer pessoa normal – quer dizer, qualquer pessoa que não fosse um idiota – faria. Meu tirou dali.

– Vamos até a padaria comigo? É ali na esquina.

Eu não queria ir. Não porque eu queria ficar sozinho, mas porque eu não queria ficar andando para cima e para baixo com o pai da Débora enquanto ela estava com outro cara. Mas o que eu poderia dizer? “Não, eu prefiro ficar sentado aqui na terra úmida, encostado nesta árvore e olhando o portão do seu prédio como se eu tivesse uma espécie de demência”? Assim, não respondi nada. Apenas guardei a carteira que ainda estava na minha mão no bolso da calça e começamos a andar lado a lado.

Era uma daquelas ocasiões que os outros idiotas do planeta olhariam para mim e sentiriam um misto de inveja e admiração e se perguntaram se um dia conseguiriam ser tão idiotas quanto eu.
A padaria, como eu esperava, estava deserta – na verdade, eu nem imaginei que ela estaria aberta. Sentamos num banquinho e o pai da Débora perguntou se eu bebia cerveja. Eu disse que sim e ele pediu duas.

– E desliga essa merda, ele disse para o cara da padaria, apontando para a televisão. Eu havia olhado para a televisão instintivamente, assim que entramos na padaria. Estava seis a zero. Mas o cara da padaria desligou imediatamente. Provavelmente, estava ali sofrendo em silêncio e torcendo para que alguém o mandasse desligar aquilo.

Colocou duas cervejas na nossa frente se serviu os copos. O pai da Débora virou o copo de uma vez e eu fiz o mesmo.

– Você não se lembra de oitenta e dois, né?, ele perguntou, pousando o copo no balcão. Eu fiz que não com a cabeça.

Ele entornou o resto da lata e bebeu novamente de uma vez, antes de continuar.

– Oitenta e dois foi pior. Hoje pode parecer que não, mas oitenta e dois foi pior.

– Pior que cinquenta?, eu perguntei.

– Sei lá. Eu não vi cinquenta. Deve ter sido uma merda também. Mas oitenta e dois foi pior porque o time era bom.

Ficamos em silêncio, bebendo. Ele, provavelmente, estava se lembrando da Copa de 82. Eu ainda estava tentando entender como deveria me comportar ali. Ele pediu mais duas. Com os copos cheios, continuou a falar.

– Aliás, nós estamos passando por isso hoje por causa de oitenta e dois.

Neste momento, eu lembrei que não estávamos apenas conversando sobre a história do futebol. Nós estávamos conversando sobre o passado para tentar digerir o presente. Meu estômago se revirou como se eu tivesse acabado de ligar a televisão e descoberto que o Brasil estava perdendo de seis a zero naquele minuto. Mas fiquei quieto e jurei para mim mesmo que não iria chorar, enquanto ele virava outro copo e eu imitava.

Não estava acostumado a virar um copo atrás do outro, mas acho que quando sua seleção passa pela maior vergonha da história das Copas, não existe bebida suficiente no planeta.

– Em oitenta e dois, ele continuou, o Brasil cismou que não iria mais ganhar uma Copa do Mundo jogando bonito. Havíamos ganhado uma jogando bonito, outra jogando bonito, uma terceira jogando bonito. Aí veio oitenta e dois. E, com aquele jogo contra a Itália, parece que as pessoas começaram a acreditar que havíamos vencido três copas jogando bonito por acidente.

– Mas nós ganhamos duas depois disso.

– Sim. Mas sem jogar como sabíamos. Talvez em dois mil e dois tenha sido um pouco assim. Mas em noventa e quatro... Você se lembra de noventa e quatro?

Fiz que sim com a cabeça.

– Em noventa e quatro nós ganhamos jogando feito time europeu. “Se fecha lá atrás e espera sobrar uma bola”. Nós começamos a jogar do mesmo jeito que todo mundo jogava contra a gente.

Ele parou e bebeu o resto da cerveja junto comigo. Eu pedi mais duas latas.

– Hoje, ele continuou, estamos aí. Sem jogar nada, jogando com medo, e apanhando de seis.

Pensei em responder que nós jogamos bem o primeiro tempo contra a Colômbia, mas antes que eu pudesse falar percebi que isso apenas daria razão a ele. Além disso, o “apanhando de seis” não abria muito espaço para uma resposta. Quando você coloca um “apanhando de seis” na mesa, a discussão está encerrada.

– Quem sabe assim a gente aprende, ele disse, mais para si mesmo que para mim, enchendo o copo novamente.

Eu bebi e aproveitei o silêncio para falar.

– Posso fazer uma pergunta?

– Claro.

– Você achou, em algum momento, que a gente ganharia a Copa?

Foi só depois que eu perguntei que eu reparei que estava com medo da resposta. Eu queria que ele tivesse acreditado também. Eu não queria ser o único a ter acreditado nisso. Ele pensou por alguns instantes antes de me devolver um “a gente sempre acredita” que saiu mais amargo do que eu – e provavelmente ele – esperava. Como eu não respondi mais nada, ele continuou.

– Esse é nosso principal defeito. A gente sempre acredita. Esse é nosso principal defeito, mas é nossa principal vantagem. Eu acreditei em todos os jogos. Quando começou o jogo hoje, eu acreditei. Você sempre acredita não só que vai ganhar, mas que vai jogar bem. O time não jogou nada a Copa inteira, e eu acreditava assim mesmo. Você também.

– Sim.

– Aí fizeram o terceiro gol. Minha mulher foi para o quarto ver um filme. A Débora saiu de casa – quando ele disse isso, meu estômago embrulhou e eu controlei a vontade de perguntar se ele sabia aonde ela tinha ido – e eu continuei na frente da TV. Mas logo em seguida tomou o quarto gol, aí eu desisti também. Peguei minha carteira e saí de casa. Não dava mais.

Senti um pouco de alívio ao ver que eu não estava sozinho. Eu era idiota, mas não era o único. Ele olhou no relógio e comentou que o jogo deveria estar acabando. Mas não fez menção de levantar e pediu mais duas cervejas. Eu estava começando a ficar bêbado, mas não me importei. Ele esperou as cervejas chegarem, encheu os dois copos e respirou fundo.

– Não se esqueça disso. Você ainda vai perder muito na vida. Mas você não pode abrir mão do que faz melhor na primeira derrota. Derrotas passam. Mas se você mudar o que você é por causa de uma derrota, ela se torna eterna. Aí ela venceu de verdade.

Eu não sabia mais se ele estava falando sobre a Copa de 82.

– Porque, como você mesmo disse, nós ganhamos algumas vezes depois disso. Mudamos o que éramos e ganhamos duas. Mas essa mudança tem um preço. E esse preço foi cobrado hoje. Perdeu como time pequeno. E quando você joga como time pequeno, é muito mais difícil voltar a ser grande. Não é difícil ser grande, difícil é voltar a ser grande. Mas vocês vão conseguir.

Eu não sabia mais se ele estava falando sobre Copas.

– Mas é preciso coragem. Às vezes acontece algo que faz você perceber que ou você volta a acreditar que é possível ganhar sendo aquilo que você sempre foi, ou você vai continuar perdendo.

Eu não sabia mais se ele estava falando sobre futebol ou sobre ele. Ou sobre mim. Ou sobre eu e a Débora. Talvez fosse um pouco de tudo. Ou talvez fosse somente a respeito de futebol e eu, meio bêbado, queria que fosse sobre eu e a Débora.

Mas não tive coragem de perguntar. Ele se levantou e perguntou ao cara da padaria quanto eram as cervejas. Eu ameacei puxar a carteira do bolso, mas ele segurou meu braço e disse que pagava. Dito e feito: pagou e fomos embora – depois de descobrir, conversando com o velho do caixa, que o jogo havia acabado. Sete a um.

Começamos a andar rumo ao prédio.

Talvez o álcool na minha cabeça estivesse atrapalhando meus pensamentos, mas comecei a pensar em mim, não no Brasil. Desde que meu namoro com a Débora terminou, eu mudei. Isso era inegável. E não foi aquela mudança que a gente tem por aprender algo, mas sim aquele tipo de mudança que a gente escolhe por medo de cair de novo. Eu nunca mais consegui me envolver completamente com alguém.

Na verdade, eu nem havia namorado sério desde a Débora, mas havia gostado de algumas coisas. Mas apenas isso: “gostado”. Eu nunca soube se não havia namorado alguém por ter apenas gostado das pessoas, ou se eu havia escolhido isso. Mas agora eu sabia que era minha escolha. Eu não queria me machucar novamente como me machuquei ao perder a Débora.

Eu passei anos achando que sentia saudade da Débora. Pela primeira vez, eu havia percebido que sentia saudade também da pessoa que eu era ao lado da Débora. E, ao mesmo tempo, eu morria de medo de ser aquela pessoa novamente e perder novamente.

Eu havia me tornado o Brasil depois da Copa de 82. Eu deixei de acreditar em mim mesmo com medo de perder, e agora eu percebia que estava levando seis gols há anos. Eu estava com medo de jogar bonito e perder de novo.

De repente, eu deixei de sentir saudade da garota por quem fui apaixonado. Tudo o que eu sentia era medo de ficar sem a garota por quem eu sempre seria apaixonado. Foi quando eu percebi que sentia esse medo há anos. Era um medo irracional, já que eu sentia isso mesmo sem a Débora ao meu lado. Mas, para mim isso, era óbvio. Pela primeira vez eu conseguia enxergar isso.

Pela primeira vez eu conseguia aceitar isso.

Chegamos à frente do prédio e paramos, em silêncio.

– Quer subir?

Sim, eu queria.

– Não. Vou para casa. É melhor.

Ele fez que sim com a cabeça e olhou para o prédio. Eu olhei também e vi a janela da Débora fechada. Ele colocou a mão no meu ombro e olhou diretamente nos olhos. Vi que ele estava quase tão bêbado quanto eu. E, sem tirar os olhos dos meus, disse:

– Mas vocês ainda podem ser grandes de novo.

Eu tive a sensação de que aquele momento era importante na minha vida, mas não consegui entender o motivo. Da mesma forma que não consegui sustentar o olhar dele. Abaixei a cabeça e mirei o chão.

Ele apertou meu ombro com mais força.

– Vocês são maiores que qualquer coisa que tenha acontecido lá atrás. Precisam apenas saber disso.

E virou-se para entrar. Eu fiquei parado, observando ele abrir o portão do prédio, e só então percebi o que estava acontecendo.

“Vocês”.

Ele não falava mais “nós” ou “você”, ele falava “vocês”. Não sei em qual momento da conversa ele começou a usar essa palavra, mas eu só havia prestado atenção agora. Ele não estava falando do Brasil. O pai da Débora estava falando sobre eu e ela.

Quando eu percebi isso, ele já havia fechado o portão e estava caminhando pela entrada do prédio. Se eu tivesse parado para pensar, teria ficado em silêncio. Mas eu não pensei – e foi melhor assim – e gritei seu nome. A palavra saiu estranha. Fazia anos que eu não chamava o pai da Débora pelo próprio nome. Ele se virou para mim e eu perguntei da calçada:

– Você não está falando de futebol, né?

Ele apenas sorriu como se estivesse sorrindo para uma criança que acabou de descobrir que tem um presente escondido em algum lugar da casa.

Eu tentei sorrir de volta, mas não consegui. Ele desapareceu pela porta do prédio e eu fui para casa, meio bêbado. Não conseguia mais pensar no jogo contra a Alemanha. Era como se ele tivesse acontecido anos e anos atrás. Eu só conseguia pensar na Débora e no bilhete que, de repente, havia abandonado qualquer chance de ser um “adeus”. Mas ele também não era um “que bom reencontrar você”.

Ele era um “eu te amo”.

Todo mundo sabia disso. Até o pai da Débora sabia disso. Se bobear, até o Batata sabia o que a Débora sentia.

Só eu não tinha percebido isso. Porque, como eu disse, eu não sou um idiota qualquer. Eu precisei perder de sete a um durante anos para entender o quão idiota eu era.

Ao entrar em casa, eu desmoronei na cama e caí no sono, sabendo que aqueles sete a um ficariam comigo.

Para sempre.

Da melhor maneira possível.


Para ler Débora e a Holanda, clique aqui.

5 leitores:

Giovana disse...

Aí está a prova que sempre se pode tirar coisa boa de algo ruim... estou aguardando ansiosa o desfecho!

Elise Garcia disse...

Alguém tinha que ter ganhado alguma coisa com essa derrota... que bom ler isso =)

Rafael oliveira disse...

O melhor texto da serie. Que conversa sensacional entre eles. Copa de 82 e relacionamentos...uau!! Parabéns.

Tuíla disse...

Adorei. Foi o meu preferido até agora!

Júlio Araújo disse...

Gente...esse foi bom.
Excelente.
Tô lendo tudo de uma vez.
Não estava acompanhando o blog na copa :(

 

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