2 de junho de 2014

Fugídio



São duas horas e você não chegou. Mesmo quando você é pontual, você demora a chegar. Eu fico na janela, fumando outro cigarro e brincando comigo mesmo, tentando adivinhar de qual lado da rua você vem, em qual carro você está. E eu erro quase sempre. Só acerto quando vejo você na calçada, quando corro para a porta e quando abro a porta torcendo para que você não veja que eu corri para abrir. Só acerto quando tenho você dentro da minha casa e consigo ignorar a sensação de que a minha casa é você. São duas horas e eu convido você para entrar.

São três horas e eu estou há anos beijando você na parede da sala. Nunca fiz outra coisa a não ser beijar sua boca – a diferença desta vez é que está acontecendo de verdade e se eu abrir os olhos você vai estar ali. E em cada beijo eu minto, fazendo promessas de uma vida que não existiria sem você de qualquer forma. E em cada peça de roupa que cai no chão, eu me pergunto se está acontecendo de verdade, ou se o hoje é o ontem à noite e eu ainda estou deitado sem conseguir dormir sabendo que você vem no dia seguinte. São três horas e nós estamos no quarto.

São quatro horas e você está na minha cama desarrumada. Com a janela fechada, o quarto está abafado e com seu cheiro. Eu não sei me comportar, e me atrapalho em querer você em querer saber você. Minhas ideias são interrompidas em beijos que ninguém vê, meus beijos são interrompidos pelos sons da sua respiração. E na mesma hora eu sei que vou ouvi-los todas as noites pelo resto da minha vida antes de dormir. Eu não tenho mãos suficientes, eu não tenho boca suficiente, eu tenho você. É suficiente. São quatro horas e você me convida para entrar.

São cinco horas e eu estou suado e largado sobre seu corpo, com o rosto enterrado no meio dos seus cabelos encharcados e com cheiro de algo que eu queria muito saber o nome. Meu corpo ainda treme, e eu sinto uma gota de suor escorrendo pelas suas costas, mas só depois que era seu dedo escorrendo com uma delicadeza que me parece até não natural. Eu tenho vontade de pedir que nunca acabe. Você sorri vendo minha aflição. E para não dizer aquele eu te amo que você não vai saber lidar, eu mergulho em você. São cinco horas e estamos fazendo tudo de novo pela primeira vez.

São seis horas e você começa a desaparecer lentamente. É uma perna que se esconde da calça, é um seio que some da vista. Eu não saio da cama fingindo infantilmente que você acabou de chegar ao invés de estar prestes a ir. Sigo você para fora do quarto tendo a certeza de que ele nunca mais vai perder o cheiro e que eu nunca mais vou conseguir direito ali. Na mesa da sala tudo começa de novo, agora desesperadamente e com gritos condenados. No meio deles, a palavra fugídio surge na minha mente e eu não sei direito o que ela significa nem como ela chegou até mim, mas ela me lembra você e todos os meses que você desaparece. Quase sem consciência, tatuo na memória para usá-la assim que sentir sua falta. São seis horas e você vai embora.

São sete horas e eu estou escrevendo tudo de novo.

2 leitores:

Elise Garcia disse...

É impressionante como seus textos-surpresa salvam meu dia. Cada um mais lindo que o outro, cada um me deixando com mais vontade de ter escrito exatamente o que você escreveu. Esses mundos que você cria servem de shelter, sabia?

Anônimo disse...

Intensamente lindo! Obrigada por tanta expressão, sentimentos transbordantes e dores gotejantes.

 

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