10 de fevereiro de 2014

Protestos



Deixou o texto pela metade e saiu de casa.

No caminho até o ponto de ônibus passou em frente a uma loja de aparelhos eletrônicos e viu a presidente numa televisão na vitrine, discursando sobre as novas medidas econômicas. Desviou das pessoas que protestavam contra o governo enquanto ouviam o pronunciamento e apertou o passo até o metrô. No meio do caminho, foi obrigado a atravessar a rua para desviar de um protesto contra a Copa do Mundo, com manifestantes se engalfinhando com policiais militares. Mas viu que a rua de baixo estava tomada por outro protesto, este contra a violência usada pelos policiais para reprimir as manifestações sobre Copa do Mundo.

Precisava chegar até o metrô. Não estava atrasado, mas não queria esperar mais. Decidiu atravessar a manifestação contra a polícia militar, que parecia ainda mais tranquila. Mas, no meio do protesto, dois manifestantes caíram na sua frente trocando socos, cada um gritando que o partido adversário havia roubado mais dinheiro público. Segundos depois, a briga da dupla se espalhou como se levada pelo vento e se tornou generalizada. Centenas de pessoas brigavam ao seu redor, trocando socos e ideologias políticas aos berros.

Correu para escapar do tumulto. Dobrou a esquina, deixando para trás o grupo de pessoas que perseguiam na calçada um menino acusado de roubar uma laranja, pulando um repórter que sangrava após ser atingido por uma pedrada, o ativista que protestava pelos direitos dos animais. Passou incólume pelo grupo de gays que andavam em grupo para garantir sua própria segurança, pelo policial que enquadrava um engraxate.

Viu o metrô na outra esquina. Começou a correr e passou pelo traficante que era contra a legalização das drogas, pelo empresário que era contra o traficante, pelo universitário que era contra o empresário, pelo governo que era contra o universitário, pela oposição que era a favor do governo, pela polícia que era contra o traficante, até chegar ao metrô e descobrir que a estação estava fechada por conta de protestos e falha mecânica.

Olhou ao redor e pegou um ônibus. Na frente, pessoas brigavam com o cobrador sobre o preço da passagem, enquanto um homem usando chapéu Panamá alegava saber tudo sobre as favelas da cidade porque tinha lido um livro a respeito. Esperou seu ponto chegar e desceu do ônibus, deixando para trás três adolescentes que estavam quase trocando socos ao discutir qual time do país era dono da maior torcida.

Deu sinal e desceu. Andou metade do quarteirão a pé até chegar à frente do prédio. Ela o estava esperando com aquele sorriso que só ela sabia dar. Sorriu de volta e se aproximou. Não trocaram palavras antes dos lábios se encontrarem – a saudade de beijar era tanta que mal teriam conseguido dizer “oi”. E durante o beijo, sentiu-se em paz com o mundo ao seu redor.

Lembrou-se do texto que havia deixado aberto no computador. Era uma carta que entregaria a ela, contando como se sentia quando a encontrava e como pretendia passar o resto da vida com ela, mesmo que o mundo pegasse fogo. Pois achava que era direito de toda pessoa defender o que acredita e, naquele momento, acreditava apenas que ela era o grande amor da sua vida.

E nada mais importava.

2 leitores:

Anônimo disse...

!!! Amei

Fernando Santos disse...

Rob, você é um romântico incurável. Tudo bem, eu também sou. E que bom que a gente pode (ainda) acreditar no amor, né? Porque acreditar neste país não dá mais...

 

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