26 de junho de 2012

Pulp (Science) Fiction


- Pois não?

- Eu fui roubado e queria prestar uma queixa.

- Certo. Foi assalto ou furto?

- Furto.

- O senhor sabe onde aconteceu?

- Não.

- E o que levaram do senhor?

- Minha criatividade.

- Como assim?

- Faz dias que não consigo escrever direito. Ah, me esqueci de dizer, eu sou escritor. E tenho certeza de que alguém roubou a minha criatividade, porque não escrevo há dias.

- Senhor... Eu não posso registrar uma queixa sobre isso.

- Eu não consigo escrever mais, e isso aconteceu de uma hora para outra. Um dia eu escrevi um texto e fui dormir. No dia seguinte, não conseguia mais escrever. Só pode ter sido assalto. Quer dizer, furto.

- Olhe, se o senhor está sem ideias para escrev...

- Não, eu tenho as ideias. Só não consigo desenvolver. Eu ligo o computador e fico escrevendo e apagando, escrevendo e apagando. Nada vai para frente. E isso aconteceu de uma hora para outra. Agora, eu sou um cidadão honesto e pago meus impostos. Exijo que algo seja feito a respeito.

- O senhor não está entendendo, eu não tenho como rastrear uma criatividade.

- Como não? Olhe, no dia em que parei de escrever, eu fui até a padaria logo cedo, tomei café e de lá peguei o metrô para ir ao escritório do meu contador. Com certeza alguém me furtou enquanto eu estava na rua. Aposto que foi no metrô.

- Senhor, eu não posso lhe ajudar.

- Como não? Sabe, num mundo perfeito, você me diria que cada vez mais estão roubando a criatividade das pessoas. Que trombadinhas têm roubado a criatividade das pessoas para comprar drogas. Ou, sei lá, trata-se de uma quadrilha especializada em assaltos a banco, que roubam a criatividade das pessoas para arquitetar golpes mais originais. E você me mostraria um álbum cheio de retratos de ladrões de criatividade e me perguntaria se eu reconheço algum deles.

- Oi?

- Mas, não! Tudo o que você me faz é ficar aí de braços cruzados, falando que não pode me ajudar!

- Senhor, eu preciso pedir para que o senhor fale mais baixo.

-Você poderia me... Espere... Criatividade roubada... Drogas...

- Como?

- Espere. Tive uma ideia. Imagine o futuro.

- Futuro?

- Sim. O futuro. O mundo daqui a, sei lá, cinquenta anos. E o homem vive numa sociedade onde a criatividade é uma nova droga, fabricada e vendida legalmente por corporações... Não. Pelo governo. Pelo governo é melhor. O governo vende criatividade e as pessoas precisam sempre de uma dose, ou não conseguem criar nada. E se não criam nada, não são aceitos pela sociedade. São os párias. São os não-criativos.

- Senhor, tem uma moça ali que teve o carro roubado, eu preciso falar com ela.

- Espere. Me ajude. Já tenho o cenário. Agora, o que pode acontecer neste mundo?

- Que mundo?

- Este que eu inventei. O que pode acontecer agora? Hum... Vamos ver, se a criatividade é essencial, criminosos poderiam usar isso a seu favor. Eles poderiam descobrir que algumas pessoas são criativas mesmo sem tomar a droga, porque nasceram deste jeito. E pessoas criativas começam a ser assassinadas e ter a criatividade roubada de seus cérebros.

- Só um minuto, senhorita. Irei atendê-la em minutos. Senhor, por favor...

- Já sei! Já sei! E a polícia poderia colocar um de seus melhores agentes para investigar o caso, mas o sujeito é totalmente viciado em criatividade. É um cara meio fracassado, perdeu a mulher e o filho num acidente, bebe feito louco, e usa doses cavalares de criatividade para escrever. É sua válvula de escape.

- O senhor terminou?

- Não, acabei de começar. Este sujeito é designado para investigar os crimes, que parecem ser cometidos por um profissional. Preciso somente descobrir um jeito de como poderia se extrair a criatividade do cérebro. Uma sonda, talvez. Sei lá. Depois eu penso nisso. E ele começa a investigar os crimes e, ao mesmo tempo, resolve escrever um romance sobre o caso. Ele passa os dias investigando os assassinatos e, à noite, totalmente dopado de criatividade, transforma o assunto em ficção.

- Senhor, eu preciso...

- Até que ele finalmente descobre uma série de pistas que mostram que ele é o assassino! Seu organismo tem alguma disfunção que faz as doses de criatividade causarem perda de memória. Talvez seja a combinação com a bebida. Então, ele percorre as ruas das cidades assassinando pessoas e roubando a criatividade delas para si próprio. Quando acorda, pela manhã, ele acha que não lembra ao certo do que fez durante a noite por causa da bebida. Mas ele é o assassino que ele mesmo está procurando!

- Que pistas?

- Como?

- Só um minuto, senhorita. Que pistas ele vai encontrar?

- Não sei ainda. Mas tudo termina quando ele descobre um diário do assassino, e o diário é basicamente o romance que ele está escrevendo sobre o caso. E com a letra dele. E aí ele não sabe se mostra isso para alguém, ou se entrega.

- Ele não se entregaria. Ele é um viciado.

- Tem razão. Mas ele é um sujeito correto. Honrado. Não sei. Não sei se ele se entregaria. Talvez ele decida pedir demissão e sumir do mapa. Mas meu feeling diz que ele morreria no final da história.

- Não gosto desse final. Não gosto dele morrendo no fim.

- Não?

- Não. Simples demais.

- Já sei. E se ele descobrisse que na verdade sua falta de memória é causada não pela bebida, mas por alguma droga que injetaram no corpo dele? Sim, é isso! Ele era um cara criativo que foi capturado pelo governo, que está testando secretamente uma nova fórmula de criatividade para fabricar assassinos invencíveis. Máquinas de combate. Toda sua memória foi apagada, e um passado novo foi criado em seu cérebro. Ele nunca foi casado, nunca teve filhos. Foi tudo implantado. E o governo está monitorando seus passos para ver sua competência na arte de matar.

- Sensacionalista demais.

- Não, é isso mesmo! E é por isso que ele mesmo está incumbido de encontrar o culpado pelos crimes que ele mesmo comete. Quer teste maior para um gênio do crime que ser perseguido por ele mesmo? O sujeito que conseguir escapar disso seria um assassino invencível! Mas como ele acaba descobrindo tudo, o experimento é considerado um fracasso, e ele morre numa emboscada. Porque o governo não pode deixá-lo vivo, ele sabe demais. Na verdade, nem precisa ser o governo. Pode ser uma corporação aliada do governo que está fazendo os testes.

- Já falei, acho simples demais ele morrer no final. Só um minuto. Macedo, você pode atender aquela moça? O carro dela foi roubado. Obrigado.

- E se ao descobrir tudo, ele fosse a público com a notícia? Causaria um escândalo, o governo e a corporação seriam investigados, e a venda de criatividade seria suspensa. As pessoas teriam que criar a partir de sua própria criatividade, e não da criatividade fabricada. O mundo cairia numa idade das trevas, com poucas pessoas criativas... Quer dizer, o número normal delas... Mas não seria mais um mundo onde qualquer pessoa pudesse ser criativa. Mas a criatividade seria autêntica.

- Talvez. Talvez funcione.

- Eu preciso anotar isso. Você tem um papel aí?

- Aqui.

- Obrigado. Onde eu coloquei minha caneta? Que inferno, eu sempre perco a caneta. Achei. Ah, não, é a chave de casa. Carteira. Onde está minha caneta? Ei... Olhe só!

- O quê?

- Minha criatividade! Acho que eu coloquei a calça para lavar e a esqueci no bolso.

- Verdade.

- E ela estava comigo o tempo todo! Bem, desculpe o incômodo.

- Tudo bem.

- Bem, vou embora para casa e tentar escrever. Agora que estou com a minha criatividade aqui, quem sabe surge alguma ideia boa para escrever? 

Após esta frase, o Policial respirou aliviado e, disfarçadamente, tirou o dedo do botão vermelho escondido sob o balcão da delegacia. A equipe de segurança não precisaria ser acionada. Mas ele emitiria um memorando ainda hoje para seu supervisor do governo, ressaltando que a segurança deveria ser reforçada. O Escritor estava chegando perigosamente perto demais da verdade.

9 leitores:

Francine Ribeiro disse...

Cara, que texto!!
Parabéns!

Adônis disse...

Muito bom, Rob! Você criou todo um roteiro de filme...
E o final? Excelente!!
Só reveja o 11º parágrafo, acho que tem duas falas nele.
Abraços

Rob Gordon disse...

Adônis:

E não é que tinham dois diálogos mesmo? Foi bobagem minha na hora de formatar o texto. Valeu pelo toque!

Abraços!

Rob

Thiago Oliveira disse...

Genial! Foi para o favoritos =)
Parabéns!

Thiago Daleck disse...

Obrigado por mais uma crônica GENIAL, Rob! Meu TCC é sobre criatividade, esse texto veio muito a calhar!

Carol Rodrigues disse...

Genial!
Genial mesmo!
Parabéns

Sil disse...

Amei!

Simples assim ;)

Beijo

Ana Claudia Savini disse...

Meu geniozinho de estimação.
hahahahaha
<3 <3 <3

Fábio Megale disse...

PQP, Rob. Sensacional, como sempre.

Esse texto aí merece uma continuação. Ou, por que não, um livro inteiro? :)

 

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