31 de agosto de 2011

BatCasal

- Precisamos conversar.

- Oi?

- Precisamos conversar.

- Como assim?

- Não tem um jeito fácil de dizer isso, então eu vou direto ao ponto.

- Ok.

- As minhas revistas do Batman. Eu sei que você tem preconceito, mas eu vou continuar chamando todas elas de gibis.

- Nem pensar!

- Eu estava pensando sobre isso. Toda vez que eu falo dos meus gibis, você me corrige. Eu não vou mudar isso. Eu sempre chamei de gibis.

- Não são gibis! São quadrinhos!

- Se você quiser chamar os seus gibis de quadrinhos, tudo bem. Mas os meus sempre foram gibis e não vou mudar isso.

- isso é heresia. Gibi é coisa de criança.

- Não importa. É a minha coleção de gibis do Batman.

- Então seus preciosos gibis do Batman não vão poder ficar junto com a minha coleção.

- Como assim?

- Não vão. A minha coleção é de história em quadrinhos. Eu me recuso a ter um gibi no meio dela.

- Sei. Então vamos ter gibis espalhados pela casa inteira por causa disso?

- Não sei. Os quadrinhos vão ficar na sala, ao lado da televisão. Caso você tenha gibis, eles podem ficar onde você quiser. Mas não junto com a minha coleção.

- Entendi. Então, quando as visitas vierem conhecer nosso apartamento, eu vou ter que explicar que metade da nossa coleção de gibis está na sala de TV e a outra metade está no quarto porque você não quer que os meus se misturem com os seus?

- Exatamente. Porque os meus são quadrinhos. Os seus são gibis. Pode deixá-los no chão do banheiro.

- Mas os meus gibis são do Batman! Você também gosta!

- Não me importa. Ou eles são quadrinhos, ou eles não poderão ficar na minha coleção.

- Vamos ser racionais? Olhe isso aqui. Isso aqui é um gibi!

- Não! Isso é um Reino do Amanhã encadernado!

- É um gibi! Igual aos outros!

- Não é um gibi! É uma história em quadrinhos! Ainda mais este, que é a edição comemorativa de 10 anos!

- É apenas um nome. Gibi, quadrinhos, revistinha...

- Revistinha não! Revistinha não!

- Tá, esqueça a revistinha. Escapou.

- Sei.

- Foi sem querer. De verdade. Desculpe.

- Tudo bem.

- Mas, voltando ao que estávamos falando... Os gibis...

- Quadrinhos!

- Eu só quero ter o direito de chamar os meus gibis do Batman do jeito que eu quiser, sem você ficar me corrigindo!

- Então fale do modo certo. São quadrinhos. Minisséries e graphic novels.

- Não, são gibis.

- Então eles não podem ficar com os meus quadrinhos. Assunto encerrado.

- Só por causa do nome?

- Não é uma questão de nome! É uma questão de princípios!

- Bem, então você guarde sua preciosa coleção de quadrinhos na sala! Compre uma redoma de vidro e deixe todos os seus quadrinhos ali! Eu e meus gibis vamos ser felizes no escritório!

- Ótimo! Só não coloque perto da minha miniatura da Enterprise. Ali é a prateleira de ficção científica, os gibis não podem ficar ali!

- Não se preocupe! Eu e meus gibis não queremos nada com a sua navezinha!

- Enterprise!

- Foda-se.

Ficaram sem se falar o resto do dia. Ela num canto, resmungando que ele era radical demais; ele do outro lado da sala, ruminando frases que envolviam as palavras “gibi” e “navezinha” com desprezo.

Mas, como todo marido e mulher feitos um para o outro, logo deixaram tudo de lado e voltaram ao normal. Ela com seus gibis do Batman, ele com suas histórias em quadrinhos. E nunca mais tocaram no assunto.

Ou nunca mais teriam voltado ao assunto se, semanas depois, ela não tivesse acordado no meio da noite para beber água. No caminho da cozinha, surpreendeu o marido na sala, mexendo em sua coleção de quadrinhos. Ao seu lado, uma pilha de gibis do Batman. Os seus gibis do Batman. Aparentemente, já há algumas noites o marido contrabandeava diversos volumes do Batman para a sua própria coleção.

- Faça o favor de devolver todos os meus gibis do Batman!

- Alguns deles merecem ficar na minha coleção, independente da forma que você os chama!

- Não me importa! Eu quero todos eles de volta ao escritório, junto com os outros gibis!

- Por favor! Eu nunca achei estes para vender!

- Ok. Tudo bem. Pode colocar aí.

- Oba!

- Com uma condição. Nós vamos juntar todos e será a nossa coleção de gibis.

- Não, por favor! Eu pago! Quanto você quer por estes quadrinhos?

- Meu preço é esse. Ou esta casa tem uma única coleção de gibis, ou todos estes Batman voltam comigo para o escritório!

- Não, por favor! Somente a saga Terra de Ninguém! Somente essa!

- Boa noite.

- Só o número seis! Por favor, só o número seis!

Ficaram três dias sem se falar, mas, novamente, acabaram fazendo as pazes. Mas agora ela tranca o escritório com os seus gibis do Batman sempre que sair de casa e antes de dormir. E azar dele que aquela navezinha do Jornada nas Estrelas fica lá trancada dentro.

Assim ele aprende.

8 leitores:

Natalia Máximo disse...

É GIBI, CARALHO!

Pri disse...

Ahaha, que máximo!
É gibi sim... rsrsrs

Hally disse...

Porque tanto preconceito com revistinha? =/

M. disse...

Lendo o diálogo eu jurava que era ele que chamava de gibi... :P

IsabelVeronica disse...

Eu também achava que era ele que chamava de gibi.

E pra mim, É GIBI. Para sempre!

Kel Sodré disse...

Olha, que engraçado, eu também me surpreendi e tive que reler tudo depois que descobri que é ela quem chama de "gibi". Mas ela e ele, está todo mundo errado. O certo mesmo é "revistinha". :-D

Mauricio disse...

Uahahaha! Ri litros.
No início também achei que ele é que chamava de gibi. Imaginei o cara meio tiozão, com revistinhas da Ebal, e a guria mais nova, "moderna e decolada", curtindo os textos cabeça do Grant Morrison.
Se bem que, como nunca encontrei uma mulher que tenha tal apreço por gibis, quadrinhos ou comics, pensei até num casal homoafetivo...

Rafa disse...

Sensacional! Se eu conhecesse uma pessoa assim pra ter esse tipo de "briga", já era casado!

Pelos comentários notei uma divisão de gênero entre gibis e quadrinhos. Pra mim estava claro que quem dizia gibi era a mulher. Afinal também segrego os meus gibis(em uma gaveta escura) dos quadrinhos (no alto da estante).

 

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