4 de junho de 2011

Doce

- Estou bem?

Ele não ouviu a pergunta. Estava distraído, mergulhado dentro de si próprio, pensando.

Estava pensando em como se sentia. Estava reaprendendo a ser ele mesmo, pouco a pouco. Estava reaprendendo a ter voz, reaprendendo a enxergar as coisas como elas são – e principalmente, estava reaprendendo a ser ele mesmo.

Estava reaprendendo a caminhar.

Sentia-se, às vezes, como um filhote que sai do ninho pela primeira vez e arrisca os primeiros passos. Mas, no caso dele, não era preciso aprender, mas sim se acostumar. Por outro lado, sentia-se, às vezes, como um adulto, que, mais do que perder tempo provando seu valor, poderia ensinar algo. Poderia fazer algo de verdade.

Estava voltando a um admirável mundo novo, que ele jurava esquecido e perdido para sempre.

Pois havia sido convidado. Havia sido convidado por um olhar delicado que cismava em escapar do seu nos momentos de timidez. Havia sido convidado pela voz delicada e segura que pronunciara seu nome no meio de uma madrugada. Havia sido convidado pelo entrelaçar dos dedos, pelo abraço afetuoso, pelo beijo roubado no meio da madrugada.

Estava aprendendo a ser ele mesmo. Estava redescobrindo a pessoa que sempre fora.

Ela não havia pedido nada, tampouco ordenado algo. Ela não havia brigado, teimado, agarrado ou explodido. Ela havia apenas convidado:

- Seja você mesmo. Seja sempre você mesmo, do seu jeito.

Ele afastou o pensamento da cabeça e sorriu. Ela estava parada na porta ao seu lado, ainda sorrindo. Apenas uma fração de segundos havia se passado. E uma fração de segundos é algo que se pode perder quando se trata de uma vida. Levantou-se e olhou para ela.

- Obrigado.

- Por quê?

- Por ter me convidado.

- Para a minha casa?

- Não. Para viver de verdade.

Ela afastou os olhos, tímida. Ele apenas completou.

- E você está linda. Mais do que sempre, e menos do que amanhã.

Ela apenas sorriu, sem saber o que dizer. E ele redescobriu ser capaz de cativar um sorriso, sorrindo discretamente junto. Ela ficou alguns segundos com os olhos teimando em escapar para os lados, mas ele não tentou capturá-los. Havia todo o tempo do mundo para isso.

Pois, aos poucos, ele redescobria que o tempo estava ao seu lado.

7 leitores:

R. disse...

:)

Tyler Bazz disse...

Sei nem explicar o quanto eu gostei de ler esse texto.

Ana disse...

Se já não bastasse o post vem o Tyler e faz esse comentário : ~

Otavio Oliveira disse...

carai.

Wi disse...

O mais bonito é ele esperar para capturar os olhos. :)

M. disse...

Seu texto me lembrou esse video http://vimeo.com/11535650

Porque o tempo é o unico que sempre estará ao nosso lado...

Mari Hauer disse...

Que coisa mais linda! Terminei de ler esse texto e fiquei sorrindo, de tão leve, querido e sincero que ele é. Pela realidade pura e simples que ele transmite. Os dois personagens desse texto merecem muito essa paz em viver de verdade!

 

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