3 de março de 2011

Afogado

Deitou-se e parou de respirar.

De olhos fechados, sentiu seu corpo se dissipar como areia no vento, desaparecendo aos poucos. Não era mais matéria, era formado somente por imagens de momentos passados. Cenas doces. Promessas de eternidade. Momentos escuros. Passagens ásperas. Brilhos apagados. De dentro das memórias, ecoava uma risada quase infantil, daquelas que se ri jogando a cabeça para trás. Seu som era doce, mas distante, como se tivesse acontecido séculos atrás, quando ele ainda era uma pessoa que agora não mais existia.

Flutuando numa escuridão negra, sua mente se perdeu em meio aos quadros com fotos e pequenas cenas que dançavam ao seu redor de forma quase frenética. Algumas, nítidas e limpas mostrando ambientes inteiros; outras, quase disformes, mostravam somente pedaços indefiníveis de um corpo visto de perto. Um canto da boca, uma pequena fração das costas, um mundo coberto por cabelos escuros.

Desesperado, procurou o chão, mesmo sabendo ser inútil. Tentou nadar em meio ao mosaico de imagens, sem saber para qual lado seguir em busca do ar. Nu, mergulhou em alguns dos quadros para tentar voltar a sua realidade, mas seu corpo atravessava as memórias como se furasse ondas; ainda sem ar, procurou afagar algumas das imagens mais ternas, mas quase se afogou em vagalhões de recordações que, represadas durante anos, derrubaram uma parede e rosnaram por cima dele.

Sacudindo as pernas, procurou nadar em busca da risada que ecoava, mas a cada metro, para qualquer lado, ela se tornava mais distante. Ela vinha de todos os lugares, dos quadros, da escuridão, de cima e de baixo. Foi quando percebeu que ela não vinha de lugar algum, mas sim de dentro dele, onde permanecia escondida feito um tesouro. Protegida. E, no momento em que percebeu isso, soube que ela nunca mais estaria no seu mundo, somente nele. E, no momento em que percebeu isso, a risada se calou.

Tentou gritar, mas sem ar ninguém ouviria sua voz, como sempre. E logo após a alma pedir arrego, seus braços se cansaram e as pernas começaram a latejar. O coração, acelerado, chorava de dor tentando continuar alimentando sua vida, mas logo explodiu, sem barulho, numa miríade de cores e odores e sabores que há tanto estavam esquecidos em algum lugar do seu passado. Sentiu-se perdendo a consciência, e, aos poucos, naufragou, afundando lentamente e sendo levado pela correnteza.

Estava à deriva e tudo ficou escuro.

Na cama, seus pulmões se encheram de ar e aos poucos seu coração voltou a bater. Seus dedos responderam aos comandos do cérebro, voltou a sentir as pernas. Logo, seu olfato detectou o cheiro de nada, tão familiar, e sua boca voltou a sentir sabor nenhum. E os ouvidos voltaram ao normal, sem detectar o menor resquício de risadas. Mas não abriu os olhos, com medo de se ver cercado por paredes brancas e sem memória de nada. Estava vivo o suficiente para saber que não teria vida.

Virou-se de lado buscando refúgio, mas conseguiu apenas afogar-se em si mesmo, tremendo de suor e molhado de frio.

4 leitores:

disse...

Literalmente de tirar o fôlego, Rob. Prendi a respiração enquanto lia e só percebi que tinha feito isso quando o personagem acordou.
Vivemos tanto tempo fechados que a abertura, as lembranças, os sentidos podem sufocar, ainda mais quando surgem todos juntos.
Não se deixe afogar, ainda que esteja "tremendo de suor e molhado de frio". O refúgio às vezes não está ao lado, mas sempre está em algum lugar.

Francine Ribeiro disse...

Muito bom!
Essa semana tive um pesadelo, mas parecia tão real, acordei com meu próprio choro. Tem horas que é um alívio muito grande poder acordar!
Tem outras que seria uma alívio poder dormir..

Lua Durand disse...

[...]

Mari Hauer disse...

Que delícia de texto! De uma sinestesia, nostalgia e melancolia deliciosos, de tanto que se misturam. De um desespero que tira o fôlego, mas de lembranças que guardamos... que mesmo vivo o suficiente para saber que não teremos vida, afogados, mas com risos e leveza bem guardados. Às vezes basta abrir os olhos, manter a respiração presa, que voltamos a toma. Deixamos de nos afogar para boiarmos... e, sem saber como, o eco interno nos dá fôlego. Sem nenhum esforço...

 

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