20 de setembro de 2010

Manuscrito

– Sabe qual o problema?

– Não.

– Nenhum.

– Oi?

– Sim. Não temos problema. Esse é o problema.

– Mas isso não é um problema.

– É sim. É tudo perfeitinho demais, bonitinho demais.

– Não, não é. Nós brigamos, às vezes.

– Não, nós nunca brigamos. Nós discutimos, mais nada.

– Mas isso não é um problema. Pelo contrário, isso mostra que a gente se dá bem.

– Mas isso não faz com que eu queira escrever.

– Como não? Você está sempre escrevendo para mim.

– Não, eu estou digitando coisas para você. Isso não é escrever.

– Então porque não escreve à mão?

– Porque não quero! É este o problema! Sabe, eu escrevo cartas e mais cartas à mão, mas somente quando estou... Como posso dizer? Não sei, quando não estou em paz. E você me deixa em paz. Eu fico sufocada nesta paz! Acuada!

– Mas o que você quer?

– Não sei. Quero o que dizem que não é para eu querer.

– Como assim?

– Não quero saber que vou ao cinema no domingo com você, quero sim ficar na dúvida se você vai passar aqui de madrugada! Quero que você me ligue quando não estou esperando, quero que você apareça do nada quando estou com minhas amigas e me roube dali!

– Mas...

– Não quero que você ligue para perguntar se estou bem, quero bilhetes com segredos doces e imundos! E quero responder com bilhetes mais imundos ainda, mais doces ainda! E todos eles escritos a mão! Quero caprichar na letra, quero seduzir você com o que escrevo e com a minha letra. Quero que você veja, na minha letra, que quero você para mim, mais que tudo!

– Mas você me tem!

– Esse é o problema. Eu não quero ter, eu quero querer!

– Isso não é impossível. Eu tenho você e quero você.

– Não, você não me tem. Você está comigo. Se você me tivesse, eu escreveria à tinta para você. Todos os dias você sabe que nós vamos para a cama. Eu quero que você não saiba, quero que você tenha que procurar no meu texto se eu vou me entregar. Na minha letra! Quero que veja se escrevi correndo, se escrevi com calma. Quero que veja quais palavras eu apertei mais a caneta no papel. Quero que você me sinta na minha letra, e não numa merda de uma times new roman que todo mundo usa!

– Mas é só um texto.

– Não é só um texto! Sou eu! É só um texto porque é digitado!

– Você está louca.

– Não. Não estou louca. E é justamente este o problema.

– Qual?

– Eu estou louca de vontade de enlouquecer! De escrever cartas e cartas, desesperada, angustiada, me embaraçando em fios de esperança que tento arrumar a cada frase. Não quero viver na paz de um teclado. Eu preciso viver em cartas!

– Eu não sei o que dizer.

– Quantas cartas você escreveu na vida?

– Muitas.

– Não estou falando de digitar, estou falando de escrever. De verdade. Com caneta, tomando cuidado para não, e amaldiçoando o mundo quando erra e precisa rasurar. Quantas?

– Nenhuma.

– É por isso. É por isso que você não sabe o que dizer.

7 leitores:

Tyler Bazz disse...

Esse povo que escreve é tudo, TUDO complicado.

Gabi Romeiro disse...

gente doida.

Fábio Freitas disse...

Achei lindo. Dá vontade que a vida seja assim, sempre. Digo, da forma como a mulher quer.

Fábio Megale disse...

Como você consegue, Rob?

Tem horas que o que você escreve parece que foi feito sob medida.

Bruno disse...

Putz, outro dia me dei conta de um negócio. Eu tenho umas cadernetas e escrevo certas coisas à mão, só que nunca postei nada disso. Nunca acho que é o tipo de coisa adequada pro blog, seria me expor demais.

"Esse povo que escreve é tudo, TUDO complicado."

Hahahaha

Marina disse...

No momento, eu não sei o que dizer.

MarianaMSDias disse...

Sabe o que é mais louco? É que é a pura verdade... Quanto mais insano o sujeito, quanto mais desequilibrado ele está... MAIS ELE ESCREVE!

Quando eu estou virada no jiraya podes crer que vou escrever BAGARAI! hahahaha

Eu entendo a moça, totalmente!

"Esse povo que escreve é tudo, TUDO complicado." [3]

 

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