22 de junho de 2010

O Colecionador

– Alô?

– Por favor, gostaria de falar com a Quitéria.

– Sou eu.

– Tudo bem, Quitéria? Meu nome é Olavo, posso fazer umas perguntas?

– De onde o senhor é?

– É... É uma pesquisa.

– Pesquisa de onde?

– Sobre... É... Sobre a eleição.

– Pode falar.

– Qual sua idade?

– 28.

– Você é solteira?

– O que isso tem a ver com a eleição?

– Como assim?

– Saber se eu sou solteira ou não. Você não deveria querer saber em quem eu vou votar?

– Sim, eu quero saber isso também.

– Bom, eu não sei ainda. Não tenho um candidato.

– Entendi. E você é solteira?

– Mas você é teimoso, não?

– É importante para a pesquisa.

– Por quê? Nunca vi a TV falar que tantos por cento das solteiras vão voltar em fulano.

– É importante sim. Confie em mim.

– Nunca vi isso.

– E você não namora?

– O que é isso, hein?

– É a pesquisa.

– Eu vou desligar!

– Não! Por favor, não desligue!

– Eu tenho mais o que fazer do que ficar ouvindo este tipo de bobagem!

– Ok. Eu abro o jogo. Mas você não vai desligar. Promete?

– Fale.

– Promete?

– Fale!

– Só se você prometer que não vai desligar!

– Fale logo!

– Promete que não vai desligar e eu falo!

– Tá. Prometo. Mas se começar com bobagem, eu desligo. Mas deixe eu perguntar uma coisa antes. Eu conheço você?

– Como assim?

– Você deve ser amigo do Marcelo. Ele que te deu meu telefone, e pediu para você me atazanar.

– Não, juro que não.

– Olha lá...

– Juro. Não sei nem quem é Marcelo.

– Bom... Pode falar.

– Você prometeu não desligar, hein?

– Fale logo!

– É o seguinte. Eu realmente me chamo Olavo, e tenho 42 anos. E eu tenho um sonho, desde moleque.

– Qual?

– Melhor contar desde o começo. Minha primeira namorada se chamava Beatriz.

– E daí?

– Calma. A segunda se chama Solange. A terceira, Patricia.

– Tá. E...?

– Quando eu tinha uns 20 anos, eu já havia namorado cinco pessoas, e os nomes de todas elas começavam com uma letra diferente. Aí, surgiu o sonho de namorar uma mulher de cada letra do alfabeto.

– Credo. Que coisa estranha.

– No começo meus amigos falavam isso também, mas eles acabaram se acostumando. O tempo foi passando e eu fui riscando as letras. Renata... Ana Maria... Joana. Os anos foram passando e fui completando meu alfabeto.

– E o Ó?

– Que Ó?

– A letra Ó. Não tem nome de mulher com letra Ó.

– Tem sim. Ofélia.

– Ah, é! Ofélia!

– Era prima de uma amiga. Mas foi difícil, até hoje não encontrei outra. Foi uma oportunidade única. Outra complicada foi a com Y. Não encontrava ninguém. O mais perto foi uma Yara, mas era uma velhinha de quase 70 anos. Mas um dia eu descobri uma Yvone, com Y. Tive que viajar para Miami para conhecê-la, ela morava lá. Me custou um 13º inteiro, mas valeu a pena. Nunca achei outro Y.

– Tá. Mas, me diz... O que você quer?

– Bem... Desculpe, fico até meio sem jeito de falar, mas... Falta apenas a letra Q.

– Q? Q de Quitéria?

– Q de Quitéria. E eu não conheço nenhuma mulher com Q. Aí entrei na lista telefônica, achei você e outra Quitéria. Liguei para você primeiro.

– E aonde você quer chegar?

– Eu queria te convidar para sair.

– Você é louco! Eu nem sei quem é você!

– Então, vamos jantar e eu me apresento. Assim, você me conhece!

– Você nem sabe como eu sou!

– Bom, sua voz é bonita...

– Minha voz é horrível. Sério, você não sabe como eu sou!

– Posso ser sincero?

– Diga.

– Não me importa como você é. Apenas o seu nome importa. Você é a minha única esperança de fechar a lista que eu tenho há mais de vinte anos! Eu preciso sair com você!

– Sou nada. E a outra Quitéria?

– Eu menti. Não tem outra Quitéria. Eu disse isso apenas para não parecer tão desesperado.

– Bem, azar o seu que não tem outra Quitéria. Porque eu não vou sair com você.

– Por favor, me dê apenas uma chance. Vamos nos encontrar num lugar público e jantar, mais nada.

– Claro que não!

– Você gosta de sushi?

– Sushi? Gosto, mas faz tempo que... Mas não é esse o ponto! Eu não conheço você!

– Por favor... Me dê apenas uma chance. Vamos apenas jantar! Isso não quer dizer que nós vamos namorar ou ter alguma coisa. Ao menos para saber que eu cheguei perto da letra Q.

– É evidente que não!

– Por favor?

– Não. Eu vou desligar.

– É importante para mim. Quitéria, por favor!

– Não, você é louco.

– Eu estou há anos atrás de você. Mesmo sem conhecer você. Eu sonho com você duas vezes por semana, há meses.

– Como assim?

– Eu estou procurando por você em todos os lugares, há anos. E não quero sair com você e levar você para a cama. Quero apenas conhecer você.

– Duvido.

– Sabe o que é passar a vida inteira atrás de uma pessoa?

– Ai...

– Eu quero apenas sair para jantar com você. Conhecer você. Saber mais de você. O que você gosta, quais são seus sonhos. E, aos poucos, conquistar sua confiança. Seria uma honra para mim. Eu abriria mão da minha lista apenas para me aproximar de você. Fiquei apaixonado pela sua voz.

– É só por causa do meu nome! Se eu me chamasse, sei lá, Maria, você nem estaria interessado.

– Não, não é verdade, Quitéria. Desde que você disse "alô", eu estou tentando imaginar seu rosto, seus cabelos, seus olhos... Estou desenhando o seu sorriso na minha mente... Ele é lindo, tenho certeza. Seu sorriso é lindo, não é, Quitéria?

– Você é exagerado demais...

– Não sou. Prometo. Admito que liguei por causa da minha lista, mas mudei de idéia. Quero conhecer você. E você está curiosa também, não está?

– Um pouco.

– Viu? É o destino. A minha lista serviu apenas para isso, para eu me encontrar você um dia. É o destino, Quitéria! Não podemos virar as costas para ele! Foi ele quem deixou você por último na minha lista! Ele queria que eu terminasse a lista com você, para poder viver apenas para você!

– Ai...

– Não é mais Q de Quitéria! É Q de Querer! E eu quero você, Quitéria! Como nenhum outro homem quis antes!

– Olhe... Vamos fazer o seguinte?

– Diga.

– Eu preciso pensar. Eu vou viajar com a minha irmã amanhã cedo. Volto na terça-feira.

– Eu não vou aguentar esperar, Quitéria! Preciso olhar seus olhos! Preciso conhecer seu rosto!

– Não, você aguenta sim. Me liga na terça-feira a tarde, tá? Neste telefone mesmo. E a gente conversa.

– Só na terça? Quitéria! É maldade demais!

– Vai valer a pena, prometo.

– Promete?

– Prometo.

– Ai, Quitéria...

– Olavo? Posso dizer uma coisa?

– Diz, diz...

– Sua voz é linda.

– Ah, Quitéria...

– Terça-feira, hein?

– Não vou pensar em outra coisa.

– Eu também não, Olavo. Vou ficar esperando.

– Já estou com saudade...

– Beijo.

– Beijo.

Olavo suspirou fundo e se acomodou na cama. Era a terceira vez que isso acontecia. Mas não iria desistir tão fácil. Ele queria sair com alguém hoje. Tinha que ser hoje. Sua esposa voltaria de viagem na tarde do dia seguinte.

Pensou em outra letra difícil. Z. Z era ótimo! Pegou a lista telefônica e procurou alguns minutos até encontrar o que queria. Discou o telefone e uma voz atendeu do outro lado:

– Alô?

– Oi, por favor, a Zuleica?

9 leitores:

Natalia Máximo disse...

Hahahaha, ÓTIMO! Já tava pensando que o Olavo era um obcecado doente até chegar no penúltimo parágrafo!

Ana disse...

"Não é mais Q de Quitéria! É Q de Querer! E eu quero você, Quitéria! Como nenhum outro homem quis antes!"

Definitivamente, o Olavo tem uma boa lábia e depois desta frase, eu ja teria marcado com ele na mesa 3 do América da Paulista.

Jullia A. disse...

hahahaha genial.

Marina disse...

Homens são mentirosos. Ela devia saber. Hahaha!

Hanna Corrêa disse...

Que cara criativo! Eu cairia na dele... hahahaha

Leel disse...

Mas que FDP.

Francine Ribeiro disse...

Muito bom!! Esse Olavo é um pilantra dos bons..rsrs

Ótimo texto!

Otavio Oliveira disse...

Vc deu sentido à teoria da Literatura que eu estava estudando com esse conto aí haha.

Wi disse...

Eu teria caído, porque fiquei com dó dele na metade da conversa. hahaha

 

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