11 de março de 2010

Mulheres da Minha Vida de A a Z - Parte V

Marcela, a Erudita
Conheci num sarau de poesia. Não me pergunte o que eu estava fazendo lá, fui porque era apaixonado por uma menina que gostava disso. Mas ela não me dava muita bola, e acabei conversando com a Marcela, depois de me encantar com a forma que ela afastava os cabelos que caíam sobre seus olhos. Começamos a conversar e nunca mais paramos. Quer dizer, ela nunca mais parou: falava sobre arte, literatura, budismo, música clássica, cinema europeu. Eu? Eu apenas ouvia e ficava torcendo para a franja dela cair sobre os olhos e ela ter que arrumar. E, entre uma arrumada de cabelo e outra, dá-lhe Renoir, Buñuel, Camus, peças de teatro amador e saraus. Eu não entendia muito, mas como não era um tapado, conseguia acompanhar – ou fingia bem. Mas nosso relacionamento começou a balançar quando ela comparou meu desempenho na cama a um quadro de Goya – eu não soube se ela estava elogiando ou não. Como eu poderia saber? Ainda se ela tivesse me comparado a um Picasso, fase roxa, tudo bem. Mas Goya? Fiquei com medo de pesquisar e descobrir que ele era minimalista. Fiquei preocupado umas duas semanas, mas não comentei. Nem deu tempo: um dia ela chegou em casa, pronta para me levar a um festival de cinema iraniano, mas me pegou no flagra: eu estava assistindo meu DVD do Pelé Eterno. Aquilo era demais para ela. Começou a chorar, gritou comigo como se estivesse sendo traída, quebrou a caixinha do DVD e foi embora. Nunca mais ligou nem atendeu minhas ligações.

Nádia, a Primeira
Todo homem tem uma primeira mulher, e a minha foi a Nádia. Olhando em retrospecto, ela não era nada de especial, ao menos fisicamente falando. Seios pequenos, pernas finas, quadris praticamente retos. Também, não era para menos: ela tinha seis anos, e nos conhecemos na escolinha. Estudávamos na mesma sala, e nos apaixonamos em algum momento entre a aula de pintura e a soneca da tarde, quando a professora contava historinhas depois do lanche. Por um período de tempo, éramos o casal perfeito. Dividíamos Toddynhos e bolachas, e eu fazia questão de dar o último pedaço do meu chocolate para ela. E um dos auges da minha vida foi quando um menino de outra sala (Rafael? Rodrigo? Não lembro) a pediu em namoro, ao lado do escorregador, e ela nem se deu ao trabalho de responder: correu para onde eu estava sentado e segurou minha mão. Nunca o mundo havia visto um homem de seis anos tão grande como eu, naquele dia. E passamos o resto do recreio ali, de mãos dadas, sem conversar. Não precisávamos: éramos o casal perfeito. Até as professoras nos adoravam. Mas, no final do ano, os pais dela foram morar em outra cidade (Rio de Janeiro? Belo Horizonte? Não lembro) e o sonho acabou. No último dia de aula, quando nos despedimos, pensei em dizer a ela que eu ainda a buscaria, que ela deveria me esperar, e que eu iria escrever todo dia. Mas, no auge dos meus seis anos, disse apenas “tchau”, ali, no parquinho. Ela disse “tchau” também, e foi embora. Nunca mais a vi. Mas às vezes acho que ainda procuro a Nádia em todas as mulheres que conheço. Mas com um pouco mais de peitos, claro.

Ofélia, a Platônica
Conheci na faculdade. Quer dizer, nunca a conheci de verdade. Desde o dia em que a vi, achei-a linda, mas nada de exuberante. Até o dia em que sonhei com ela. Assim, do nada, uma noite, sonhei que estava me casando com ela. Acordei apaixonado. Tão apaixonado que não conseguia falar com ela. Não éramos da mesma sala, mas nos conhecíamos de vista e às vezes ela me cumprimentava – e eu conseguia apenas responder resmungos. A coisa foi ficando cada vez mais feia – tinha dias que voltava para casa chorando de amor e jurando para mim mesmo que de amanhã não passava. Mas sempre passava. Cheguei a sonhar, antes de me formar, que estava contando sobre o primeiro sonho para ela. Era o cúmulo do platônico: um sonho dentro de outro sonho. Era a mulher da minha vida e não fazia idéia disso. Nos formamos, e foi cada um para o seu lado. Um dia, no shopping, a vi de longe, de mãos dadas com uma criança. Pensei em ir até ali, perguntar como ela estava, se ela se lembrava de mim, se estava casada e, aproveitar e me ajoelhar na frente dela, dizer que nunca havia deixado de amá-la, que pensei nela todos estes anos, que nunca alguém a faria feliz como eu faria e que não devíamos mais perder tempo e largue tudo e foge comigo, por favor, eu não aguento mais! Quem dera. Assim que a vi, quase me joguei numa fonte, empurrei uma velha e desviei o caminho correndo. Eu ainda não estava pronto. Eu nunca estaria.


Aos leitores:

Por distração, errei o nome das mulheres deste post - as iniciais de cada nome, que seguem ordem alfabética, acabaram se repetindo com os nomes usados na Parte IV. Assim, corrigindo o erro de continuidade, troquei os nomes. Desta forma, quem ler os comentários abaixo encontrará menções a nomes que não estão aqui. Para ilustrar: Joana se tornou Marcela; Kátia se tornou Nádia; Lisandra se tornou Ofélia. Apenas os nomes mudaram, os textos são os originais. Desculpem a confusão.

8 leitores:

Tyler Bazz disse...

Uma Joana eu não sei.

Mas acho que todo homem, ou boa parte de nós, tem uma Kátia, e uma Lisandra..

claudiaiarossi disse...

Pode ter certeza que o amor mais puro foi o da Katia.

Lindo!!! Chorei!

Thaís Vidal disse...

Eu já fui a Kátia para alguém...foi quando fui verdadeiramente feliz.
Lindo...

Mari Hauer disse...

Concordo com o Tyler para falar do lado das mulheres: toda mulher já teve um homem como a Katia e como a Lisandra!

Eu adoro "As mulheres da sua vida". Acho que nunca me identifiquei inteiramente com nenhuma delas (sim, eu já li de A a L), mas já flagrei algumas características delas em mim. Acho esses seus textos leves e de uma sutileza encantadora. Gosto de perceber como cada mulher consegue fazer um homem ser tão diferente sendo ele mesmo...

Lindo de morrer!

Natalia Máximo disse...

Toda mulher foi a Kátia de alguém um dia, e é o amor mais bonito que existe!

Varotto disse...

Já tive uma história do tipo Lisandra, pelo menos a parte de não dar muita atenção até o dia em que tive um sonho.

Mas o final da minha história foi diferente.

Otavio Oliveira disse...

De todos, esses seus textos de A a Z são pra mim os melhores. obrigado por ter vivido minhas próprias experiencias anos antes e transforma-las em literatura.

Borealis disse...

o cúmulo da platonice foi a melhor. ri alto.

muito bom, valeu

 

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