28 de dezembro de 2009

O Conto do Príncipe Caído

E um dia o Príncipe voltou de viagem para o seu Reino, após semanas viajando por outras terras. Era uma manhã de Sol e o Príncipe entrou na cidade aos pés do seu castelo, montado sob seu cavalo branco. Mas o povo não estava nas ruas para recebê-lo.

O Príncipe estranhou o silêncio. Sempre que retornava de viagem, era recepcionado com festa e música. Bandeiras coloridas enfeitavam a cidade, e a praça central ficava tomada de gente: crianças brincando de roda, jovens namorados fazendo promessas de amor, famílias inteiras querendo ver o Príncipe de perto. À noite, banquetes imensos eram oferecidos.

Não era uma forma de tributo. Era apenas a maneira de o povo celebrar que seu Príncipe havia retornado para o lar, e estava entre eles novamente.

Mas desta vez, não havia bandeiras ou festas. No lugar da música, havia apenas silêncio. No lugar da multidão, festiva, apenas o vazio. Cavalgando pelas ruas de pedras, percebeu que era a única pessoa do local. Todas as casas estavam fechadas. As janelas estavam cerradas, as portas trancadas. Seu castelo estava trancado, as luzes apagadas.

O Príncipe chamou pelo povo, mas obteve como resposta apenas os ecos do galope de seu garanhão. Percorreu a cidade inteira. Rua por rua, pátio por pátio, praça por praça. Não havia ninguém. Galopou pelas fazendas, nos extremos da cidade, mas não encontrou o povo.

Chegou aos limites da cidade e, sem saber para onde ir, entrou na floresta.
Conhecia bem a mata. Havia aprendido a caçar ali, quando criança. Sons de pássaros invadiram sua mente.

Após alguns minutos, deparou-se com uma figura vestida de branco dentro de uma palhoça. Era a Vidente, mulher que vivia ali, reclusa, há décadas. O povo a evitava, por superstição, chamando-a de bruxa e evitando olhar para ela nas poucas vezes em que entrava na cidade. Mas o Príncipe sabia que, apesar de excêntrica, era inofensiva.

Assim sendo, se aproximou da mulher e a chamou.

– Vidente! Onde está meu povo?

A velha, que fiava numa espécie de máquina, levantou os olhos e encarou o Príncipe em silêncio por alguns segundos. O Príncipe devolveu o olhar. Ficaram assim por alguns segundos, até a Vidente suspirou e interrompeu suas tarefas, levantando-se.

– Povo? O senhor não tem mais povo.

– Como não? Sou o Príncipe.

– O senhor não é mais o Príncipe. Teu povo não te quer mais.

– Que sandice é essa?

– Teu povo não deseja mais um Príncipe. Eles acham que não precisam do senhor.

O Príncipe desmontou do cavalo e aproximou-se da mulher. Olhou-a em silêncio, procurando por traços de mentira em seu rosto.

– Vidente, conte a verdade.

– Esta é a verdade. Teu povo lhe renegou.

– Mas por qual motivo?

– Não há motivo. Pelo menos, não é um motivo que eles possam entender. Eles apenas não o querem mais.

– Mas qual a razão disso? Eu sempre cuidei do meu povo. Sempre lhe provi com alimentos e festas. O Reino não está em paz há décadas? Prosperando?

– Sim.

– Mesmo em momentos difíceis, sempre fiz questão de levar a vontade do povo em consideração. Permiti que eles governassem lado a lado comigo. E perdoei todos seus erros. As poucas pessoas que bani do reino, não o fiz por capricho, mas por saber que seriam prejudiciais ao meu povo.

– Eles sabem disso.

– Durante toda a minha vida, eu coloquei as vontades do povo acima das minhas. Governei por eles, jamais por mim.

– Sim. Este é justamente o problema. O senhor tornou as coisas fáceis para eles. Agora, eles acham que é fácil ser feliz e prosperar. Que não existe outro modo de viver, que não seja feliz. Acham que fácil. Fácil a ponto de não precisarem de um Príncipe.

– Como assim?

– Eles não percebem que tudo era fácil porque o senhor estava aqui. Eles não conseguem entender isso. Apenas acham que é fácil. Acreditam que sempre estarão felizes, bem alimentados e protegidos. Estão certos de que sempre estarão protegidos, sem desconfiar que era o senhor quem os protegia o tempo todo, Príncipe.

– Mas eu sempre estive com eles. Como eles não percebem meu valor?

– Eles não percebem seu valor porque eles não conhecem outra vida. Eles não sabem como é a vida real. Não fazem idéia de que existe pobreza, guerras e doenças. Porque o senhor nunca deixou isso se aproximar deles. E como eles não conhecem nada disso, não sabem o valor que o senhor tem. Eles não sabem o que é viver sem um Príncipe.

– Cuidar do meu povo foi errado, então? Deveria ter sido tirano?

– Talvez. Mas esta pergunta é desnecessária. O senhor sabe que jamais teria conseguido agir desta forma.

O Príncipe parou e refletiu. Queria recuperar seu Reino, mas ainda não havia aprendido a pensar nele. Pensava apenas no povo. O povo sempre havia sido sua maior preocupação, desde que havia nascido.

– E eles conseguirão? Prosperar sem mim? Terão sucesso nisso?

– Não. Talvez prosperem. Mas apenas o suficiente para sobreviver. Jamais como prosperam hoje.

– E o que acontecerá então?

– Chegará um momento em que eles perceberão que tudo se tornaria mais fácil se existisse um Príncipe justo, bondoso e compreensivo cuidando deles.

– Um Príncipe como eu.

– Um Príncipe como senhor.

– E aí, recuperarei meu trono?

– Não, Príncipe. Neste momento, o senhor já estará longe. Seu povo ainda se lembrará... Seu nome será lembrado ao redor de algumas fogueiras. Mas o senhor estará longe. Pois muito tempo se passará até que isso aconteça.

– Então, é isso. Não há retorno. Nem mesmo quando eles aprenderem meu valor? Quando eles enxergarem tudo o que lhes dei?

– Não, não há.

– E eles encontrarão outro Príncipe para cuidar deles?

– Talvez. Mas jamais será como o senhor. Não haverá outro bondoso, justo, ou compreensivo. Não como o senhor.

– Então, tudo o que fiz foi mostrar a eles o caminho que os levará à descoberta do valor real de um Príncipe, mas de um Príncipe que eles jamais terão novamente?

– Exato. Eles só aprenderão teu valor no momento em que ficarem sem o senhor. Mas aí será tarde demais.

– Isso não é justiça. Eu não quero que meu povo saiba meu valor apenas quando for tarde demais, quando eu não puder retornar.

– Príncipe, o fato de o senhor ter sido justo com seu povo a vida inteira não faz com que eles sejam justos com o senhor. Ou com eles mesmos.

– Há algo que possa ser feito? Algo que eu possa fazer por eles?

– Não. O caminho deles é diferente do seu, agora. Eles assim quiseram.

– Vidente, faça algo por mim.

– Sim, senhor.

– Cuide de meu povo por mim.

– Não é o meu papel, Príncipe. Também não é mais o teu.

Resignado, o Príncipe montou em seu cavalo, sob o olhar da Vidente. Palavras lhe faltavam. Tocou a jóia verde que carregava no pescoço, símbolo de seu poder, com a ponta dos dedos. Suspirou, resignado. Arrancou a corrente de ouro com as mãos e jogou a pedra longe, no mato. Esperou alguns momentos e olhou novamente para a mulher.

– E eu, Vidente? Encontrarei outro reino?

– Talvez. Teu destino é incerto. Mas saiba que se você encontrar outro, jamais reinará tão bem como reinou aqui, Príncipe. Vocês dois perderam hoje. Você e o povo.

Olhou fixamente para a mulher, até que deu um grito com seu cavalo e saiu cavalgando floresta adentro, deixando a cidade para trás.

Pouco antes de desaparecer na mata, o Príncipe parou seu cavalo e olhou na direção do seu castelo. Ficou imóvel por alguns minutos, até que secou os olhos e partiu cavalgando.

E nunca mais foi visto.


Moral da história: Não há. Porque algumas histórias simplesmente não têm moral. Foi isso que o Príncipe descobriu quando olhou para seu castelo pela última vez. Foi isso que o fez chorar.

6 leitores:

Tyler Bazz disse...

Podia até dizer que parece que todo príncipe um dia perde o encanto. Mas não. O encanto continua, só deixam de ver.

Bia disse...

Impossível conhecer o verdadeiro significado deste texto, pra mim, metafórico.
Aproveito o ensejo para dizer que nenhum povo será feliz como deseja o seu príncipe, ainda que o príncipe se preocupe demasiadamente pelo seu povo. O príncipe só pode ser feliz por ele mesmo e deixar que o povo procure onde bem entende a felicidade, ainda que em outro reino... Viajei? Sorry, seus textos me fazem viajar as vezes... ou não!

Jullia A. disse...

tem um filme que se chama magnólia. O filme defende a idéia de que as coisas simplesmente acontecem. não tem porque, histórico, elas simplesmente acontecem. COmo na vida.

R. disse...

há reinos pelos quais não se vale a pena lutar. simples assim.

Amanda Ullmann disse...

Talvez haja uma moral. Talvez haja um motivo, talvez para quase tudo na vida. Só que às vezes os descobrimos tarde demais, e já não podemos fazer nada, sequer refletir. Como na história.Mas isso não faz a vida ser menos bonita, de novo, como a história.

Lua Durand disse...

as vezes as coisas simplesmente acontecem, e como deveriam acontecer.
o principe foi bom, fez tudo o que pode, e mesmo assim isso aconteceu, haviam outros caminhos, ele escolheu o seu, e o povo também.
como Bia disse mais a cima, metaforico.
e extremamente bonito.
o principe chorou, e acredito que tenha entendido, tenha tido um insight, desses, de vida.

 

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