9 de outubro de 2009

O Último Dia Igual aos Outros

E eis que, um dia, ele criou um cartão de aniversário.

Na verdade, não era exatamente um cartão, mesmo porque não havia ilustração alguma. Era apenas um texto, quase uma pequena crônica, que começava com a frase “teoricamente, hoje será um dia igual aos outros”. Sentou-se e escreveu, falando sobre Sol e chuva, sobre o que as outras pessoas fariam naquela data, a música que tocaria naquelas 24 horas e o que aquele dia significaria, não somente para ele, mas para o mundo em geral.

Escreveu no computador, imprimiu e guardou na carteira, dobrando com cuidado. Não mostraria para ninguém.

Curiosamente, não era aniversário de ninguém que ele conhecia. Ele apenas havia se sentado e escrito o texto, sem destinatário, somente por inspiração.

Aliás, mais do que por inspiração, havia escrito com o objetivo de provar para si próprio que estava certo ao acreditar que, em algum lugar do mundo, havia uma pessoa que mereceria esta crônica.

Porque, mesmo com todos os tombos que havia levado, ele se recusava a deixar de acreditar que esta pessoa estava lá fora, em algum lugar. Seus olhos se encheram de lágrimas quando pensou que talvez ela nem mesmo desconfiasse do quanto era especial. Mas o pior, na opinião dele, é que ela poderia estar sendo tratada de forma normal pelos outros, que seriam ignorantes demais – ou por estarem tão acostumados a vê-la em seu dia a dia, fazendo suas coisinhas – para reconhecer seu brilho.

Escrever aquela crônica seria mais que um presente para aquela pessoa. Seria um presente para ele próprio.

Assim, com o papel na carteira, apagou seu passado, deixou os tombos para trás, junto com as lágrimas e partiu em busca desta pessoa. Sabia que demoraria a encontrá-la, mas prometeu a si mesmo que a encontraria de qualquer jeito.

Até lá, o papel ficaria na sua carteira, esperando para ser entregue. Nem que isso durasse anos.

Na verdade, ele sabia como esta pessoa era. Ele sabia quem deveria procurar. Estava atrás, da única pessoa do mundo que faria com que ele se sentisse como se fosse seu próprio aniversário em todos os dias da sua vida.

Ele estava atrás da última pessoa do mundo que, quando perguntava se “está tudo bem?” realmente queria saber a resposta. A última pessoa do mundo que realmente sorria quando estava feliz e que chorava, sem medo de chorar, quando estava triste. A última pessoa do mundo que ainda sabia como abraçar. A última pessoa do mundo que valia a pena ser abraçada.

Esta era a dona do cartão: a pessoa que continuava vivendo artesanalmente, enquanto o resto do planeta vivia de forma automática.

E ele sabia que esta pessoa estava lá fora, em algum lugar. Ele iria encontrá-la.

Assim, com o texto no bolso, ganhou as ruas e olhou para o relógio. Eram 18:30. Partiu em direção ao oeste, pois sabia que esta pessoa, seja ela quem fosse, certamente estava próxima ao Sol.

18 leitores:

Cami Pires disse...

perfeito!!!

Varotto disse...

Bom para garái!

May. disse...

QUE texto, viu. QUE texto!...

Matheus Silva disse...

cara, todos esses textos do chronicles sao otimos

Nadia disse...

caramba... muito bom.

Nadia disse...

caramba... muito bom.

Cami Pires disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Marina disse...

Gosto de texto cuja última frase seja assim, do tipo que a pessoa se recusa a escrever depois dela, tão perfeita e definitiva.

Lindíssimo o texto inteiro, Rob. Abraço!

MaxReinert disse...

Sem mais.... ;)

upload disse...

Às vezes o problema é continuar na caminha e não pensar se algo está errado.

Tanta coisa acontecendo, tanta gente sendo feliz com menos (e se não for, disfarçam muito bem), que parece ser tolice procurar "o mais", o sentimento verdadeiro.

Mas foi bom ler isso, sabia? Foi bom constatar que eu não sou o único.

Abraços cara, parabéns pelo seu Blog.

upload disse...

www.tucatucz.wordpress.com

Tyler Bazz disse...

Muito!!!

Quase dá esperança na gente...

Melinda Bauer disse...

Gostei!
A idéia é soberba!
Mas é melhor guardar o papel em lugar seco e fresco porque pode demorar!
Gostei do " viver artesanalmente" e da "última pessoa que"...!
"...estar lá fora em algum lugar"
Hum!

Larissa Bohnenberger disse...

Que lindo, que lindo!!!

Lua Durand disse...

é tão lindo, cada palavra, signficado e afins...
os seus textos me fazem sonhar, com essas histórias/estórias felizes...

ainda bem que esse blog existe.
..
.

.

lua,

Anepigrafia disse...

Injeção de ânimo(ouso até dizer esperança, espera...) total!!! É difícil dizer qual texto gosto mais!
#beijojávou

Mari Hauer disse...

Eu estava no meio deste texto, já no meio de lágrimas, e começou a chover... Como se o mundo dissesse: "choro com vc agora, não está mais sozinha".

Hoje acordei, respirei fundo e, teoricamente, seria um dia igual aos outros. Não foi...

Senti vontade de escrever um texto pra guardar e nunca enviar, senti vontade de falar com alguém e engoli cada palavra, senti vontade de perguntar tanta coisa e vou dormir com os pontos de interrogação, calados pela minha falta de coragem...

Às vezes vemos o brilho de alguém que está tão próximo sem saber se esse alguém tem consciência daquilo tudo. E quase posso apostar que não. Às vezes as pessoas se privam de brilhar, mesmo sem competir com o Sol e só olham ao redor sem antes ter olhado pra si...

Deixam que algumas pessoas brilhem e aumentam o brilho sem antes perceberem que, elas mesmas, brilham por aí...

*#*@le*#* disse...

Simplesmente Lindo.

 

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