20 de outubro de 2009

Ela

E eis que, um dia, ele decidiu que iria escrever sobre ela.

Sentou-se uma noite em casa e escreveu um texto sobre o sorriso dela. Era uma espécie de pequena crônica, na qual ela era apenas uma personagem secundária. O principal era seu sorriso. Gostou do que havia escrito, mas, por um daqueles motivos que a gente não entende, pensou melhor e resolveu não mostrar a ela. Achou que ela gostaria, mas, mesmo assim, decidiu guardar o texto.

Salvou o arquivo no computador e esqueceu-o por uns dias.

Logo, a vontade de escrever voltou. Não era apenas vontade de escrever, era vontade de escrever sobre ela. Achou que era bobagem ou perda de tempo. Afinal, ela nem tinha lido o texto anterior, porque escrever novamente? Afastou a idéia da sua cabeça e foi fazer outra coisa. Menos de vinte minutos depois, estava sentado na escrivaninha, digitando.

Desta vez, não escrevia para ela. Sabia que não mostraria o texto para ninguém. Estava digitando para ele. E escreveu linhas e mais linhas sobre ela, sobre o sorriso dela, que ele admirava de longe, sem poder elogiar. Mas tinha certeza de que pensava tanto sobre o sorriso dela que o conhecia mais do que ela própria.

Afinal, não era um sorriso. Era o sorriso dela.

Terminou o texto e salvou novamente no PC. A vontade havia passado. Foi fazer outras coisas, foi cuidar da vida, esqueceu o texto e foi tentar esquecê-la.

Logo, voltou a escrever. Desta vez, foi diferente. Sonhara com ela e acordara quase febril, com os olhos dela fixos no seu. Foi correndo para o PC e, ainda com as lágrimas rolando e insistindo em mostrar para ele que o olhar dela havia sido somente um sonho, escreveu linhas e mais linhas sobre aqueles dois olhos escuros, brilhantes. Salvou o texto na mesma pasta e foi dormir, para esquecer o resto de saudade.

Com o tempo, isso se tornou um hábito. Escrevia textos e mais textos sobre ela. Poemas, crônicas, contos, frases jogadas em telas brancas. E cada um deles abordava uma característica dela: além do olhar e do sorriso, escreveu sobre o cheiro dela – ele nunca havia sentido, mas tinha certeza que era doce e suave – sobre seu beijo.

Passaram-se os meses e o corpo dela acabou. Não havia mais sobre o que escrever. Foi aí que resolveu escrever sobre tudo o que ela fazia. Descobria que ela fazia esportes, e escrevia sobre seus movimentos; quando ouviu falar que ela adorava sábados de manhã, escreveu um poema venerando isso; até mesmo seu chocolate preferido, com avelãs, ganhou uma crônica, na qual ele dizia que, na verdade, ela era a preferida do chocolate, pela doçura dos seus lábios.

E, quando descobriu que ela tomava Martini, comprou uma garrafa e se embriagou sozinho, de olhos fechados, fingindo que bebia com ela, apenas para escrever sobre isso depois.

Fazia amor com ela, dentro da sua mente, todos os dias, transformando isso em textos. Como não podia tocá-la, transformava-a em letras e a manipulava ao seu prazer, cortando parágrafos, beijando-a na chuva, editando frases de forma enfurecida, cuidando dela nos momentos difíceis, revisando os textos, dormindo abraçado com ela nas noites de tempestade.

Passaram-se os anos. Ela possuía centenas de textos sobre ela. Dentro daquela pasta no computador, havia informações sobre ela que nem mesmo ela sabia. Foi através dos textos que ele descobriu que ela adorava que beijassem suas costas, quais elogios a deixavam sem graça, que gostava de passear de mãos dadas, e quais frases a faziam chorar de emoção.

Foi escrevendo diálogos que soube o quanto ela era sarcasticamente doce e docemente sarcástica, sempre ao mesmo tempo. Desvendou seus sonhos e medos. Passeou pelas memórias de infância dela – ao menos, por aquelas que ele conhecia –, pelos seus pratos preferidos, pelos dias mais felizes de sua vida.

E sempre se mantendo fiel ao que sabia, pois não ousaria jamais reescrever algo. Não tinha o direito – nem a vontade – de mudar algo sobre ela.

Assim, relia os textos com freqüência, não para corrigi-los ou ver o que mudaria, caso escrevesse hoje. Nem mesmo para organizá-los. Somente sobre o cheiro dela, por exemplo, existiam mais de dez arquivos. Ele os relia, sempre vorazmente, pois não havia criado uma personagem; havia, sim, criado um mundo secreto, onde tudo – até mesmo as dores e lágrimas – aconteciam não com ela, mas por ela.

Este mundo, a despeito de ser construído com palavras, era formado por ela. Tinha o seu cheiro, a sua cor, a sua marca. E ele sabia que aquele mundo era melhor que qualquer outro que pudesse ser criado.

Não porque ela estava neste mundo. Ela não estava. Ela era o mundo.

E nunca, nunca parou de escrever.

14 leitores:

Varotto disse...

Muito bom mesmo...

Mas se tivesse sido escrito pelo Tyler, tenho certeza de que, após anos de textos, o HD do computador daria pau e ele não teria feito backup.

Leandro disse...

o pior é que eu pensei a mesma coisa que o Varotto :-)

Ana disse...

A sutil diferença semântica entre escrever PARA ela e SOBRE ela, é extremista. Ele escreve PARA ele, sobre ela.

Quando a narrativa se constitui estruturalmente desta forma, é difícil encontrar o foco narrativo, que na verdade, não está nem no leitor e nem no narrador e sim na personagem.

Ao mesmo tempo em que ela (a personagem) se distancia, qdo ele diz nunca ter sentido seu cheiro, ele a aproxima, citando os adjetivos que descreveriam como esse cheiro seria. E há certeza nisso.

A personagem, em nenhum momento desmente o narrador, ela apenas se interioriza. Ela é dele, não porque ele a criou e sim porque ele a "desenvolveu", o que a torna mais elaborada, já que ela não é plana, nem circular, ela apenas "É". Ela "é" sarcástica. Ela "é" doce. Ela "é" dona do mundo em que ele criou para ela. E este mundo sim, é plano e regular, pois se fosse diferente, seria difícil inseri-la ali. Este mundo (como ambientação pragmática) é flexível. A personagem, não.

A fusão da personagem com o mundo em que foi criado para ela também funde ficção e realidade, invenção e fato. Ela é real. O mundo em que ela vive é real. Mas eles existem de forma realmente concreta, na mente do narrador.

...ou nos arquivos salvos.

Rob Gordon disse...

E assim, temos a inclusão do conceito Chupa Tyler, antes restrito ao Champ, também no Chronicles.

Jullia A. disse...

DHOASIUDHASIUDHASIUDHAOSIUDHASIUDHAOSIUDHASOIUDHAOSIUDHASOIUDH
Varotto Rulez.

Acho bonito, mas meio obsessivo. Me assusta um pouco.

Tyler Bazz disse...

Chupa Tyler no Chronicles.


Não sei se fico orgulhoso ou se corto meus pulsos.
(na verdade, eu sei U.U)

Isabella disse...

... Lindo demais...

Tyler Bazz disse...

Só pra constar:

- se um dia eu ficar rico, banco vc. o mesmo que vc ganha hoje, só pra continuar escrevendo assim (a gente negocia direitos comerciais depois :D)

- queria mandar um abraço (VAISEFODER!) ao sempre querido Varotto. :)

Layla Barlavento disse...

Queria ser ela sem ser ela...

MaxReinert disse...

Lindo....

... mas concordo com a Julia... assusta um pouco essa obsessão!

Otavio Cohen disse...

esse povo que diz que o texto é obsessivo não conhece ELE. é bem acima disso. ehehe

Varotto disse...

"queria mandar um abraço (VAISEFODER!) ao sempre querido Varotto"

Ih! Emocionei...

li disse...

Que lindo! Tinha esperança que no fim do texto, a gente descobrisse que ela fazia o mesmo com relação a ele, mas que eles nunca se descobririam! (:
Parabéns! Adorei o blog!

www.muitomelhorqueatuaex.wordpress.com

Leonor disse...

Adorei o texto(q novidade!), e gostei ainda mais das demonstrações de afeto entre Rob, Tyler e Varotto, o amor é algo comovente...^^

 

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