24 de dezembro de 2014

O Cachorrinho que Ganhou um Nome

Para o cachorrinho que andava pelas ruas, era um dia como qualquer outro.

Andava pelas ruas sem rumo – porque uma das melhores coisas de ser um cachorro e poder andar sem rumo – procurando algo para comer.

Seus dias eram iguais desde que se perdera dos seus irmãos, meses atrás. Estava brincando com eles e encontrou uma formiga maior do que todas que tinha visto até então. Curioso, começou a perseguir a formiga para ver até onde ela ia, mas acabou indo longe demais e nunca mais encontrou o caminho de volta. Andou por horas até se convencer de que estava sozinho. Ainda era filhote, então sentou na calçada e chorou de saudade. Mas logo as horas se passaram e a fome se tornou maior que a tristeza, então voltou a andar em busca de algo para comer.

Desde então, era isso que fazia todos os dias: procurava comida e um gole de água fresca. Quando começava a escurecer, saía em busca de um lugar quentinho para dormir. Enrolado num cantinho, o cachorrinho dormia e sonhava que estava junto com seus irmãos até o dia clarear. Aí acordava, se espreguiçava e começava a andar em busca de algo para matar a fome.

Às vezes, conseguia algo com alguma pessoa. Ganhava um resto de sanduíche na porta de um bar, ou uma sobra de carne nos fundos de um restaurante. Mas claro que nem todas as pessoas eram assim: existiam aqueles que estavam sempre com um chute ou uma pedra prontos, como se estivessem apenas esperando o cachorro chegar perto para fazer alguma maldade – porque o cachorrinho já havia aprendido que as pessoas ruins não fazem maldade por necessidade, mas sim porque gostam de ser assim.

Entretanto, na maior parte do tempo, o cachorrinho era ignorado pelas pessoas das ruas. Às vezes, achava que era melhor assim. Mas, quando a saudade dos seus irmãos apertava, ele se sentia um pouco sozinho demais, especialmente porque o cachorrinho gostava de brincar e era muito chato brincar sozinho o tempo inteiro. Mas tudo isso sempre passava quando a forme apertava. Aí, ia para as ruas em busca de comida.

Mas, naquele dia, as ruas pareciam diferentes. O cachorro percebeu que parecia ter mais pessoas que o normal. No começo, achou que fosse apenas impressão sua, mas logo concluiu que realmente algo deveria estar acontecendo.

As ruas estavam visivelmente mais lotadas, com pessoas caminhando apressadas para cá e para lá. Carregavam sacolas e falavam ao telefone, sempre com medo de perder a hora ou de esquecer alguma coisa. Eram milhares, se esbarrando e pedindo licença umas para as outras, enquanto faziam contas, conferiam o horário e repassavam listas de parentes e amigos. Algumas delas se abraçavam, e o cachorrinho ouviu algumas desejando feliz natal para as outras, mas não entendeu o que isso queria dizer.

Além disso, ele tinha coisas mais importantes para se preocupar. Já era tarde e ainda não havia comido nada. Seu estômago roncava de fome. E, para piorar, ele não conseguia andar direito pelas calçadas por causa da multidão de pernas e sacolas. Não queria andar pela rua porque morria de medo dos carros e caminhões – quando ele não sonhava com seus irmãos, tinha pesadelos que um carro passava por cima dele e acordava ganindo no meio da madrugada.

Assim, fez a única coisa que conseguiu: se escondeu num cantinho entre dois prédios e ficou esperando o movimento diminuir. Uma hora as pessoas precisariam ir para casa, pensava deitado, acompanhando o movimento com os olhos e tentando ignorar a fome.

As horas se passaram e nada do movimento diminuir. A fome apertava cada vez mais. Em um momento, viu um pedaço de pão que alguém havia deixado cair na calçada e pensou em ir atrás dele, mas não conseguia sair do beco por causa da quantidade de pessoas e sacolas que passavam entre ele e o pãozinho. Logo, o pão foi chutado e desapareceu de vista, e o cachorrinho se deitou novamente.

Seu estômago roncava. Então resolveu dormir um pouco para esquecer a fome.

Quando acordou, estava começando a anoitecer e a rua estava praticamente deserta. Como sua barriga doía de fome, resolveu dar uma volta rápida, apesar de não gostar de ficar andando depois que o Sol ia embora – tinha a impressão que as pessoas ruins gostavam mais desse horário.

Começou a andar pelas ruas, mas percebeu que devia ser mais tarde do que ele imaginara, já que todas as portas estavam fechadas. Para piorar, estava começando a esfriar e uma garoa fina começou a cobrir a cidade. Logo seria hora de dormir, e ele ainda não havia comido nada.

Andou até encontrar algumas pessoas saindo de uma igreja. Aproximou-se delas, esperando que alguém o desse algo para comer, mas tudo o que conseguiu foi ser enxotado. Não teve melhor sorte quando ouviu um barulhão e descobriu que o dono de uma padaria estava terminando de baixar as portas de aço do lugar. O cachorrinho se aproximou abanando o rabo, mas o homem nem olhou para ele. Trancou a porta e entrou em seu carro apressado, como se o cachorro não existisse.

Andando pelas ruas, ele percebeu que vozes vinham de dentro das casas. Quase todas elas estavam acesas, e as pessoas falavam alto e riam. E sempre que se aproximava de uma delas, o cheiro de comida gostosa fazia sua boca salivar. Mas ninguém olhava pela janela. Ninguém olhava para ele. Estavam todos ocupados comendo e se abraçando.

Já era tarde e o cachorrinho desistiu de comer. Precisava encontrar um lugar para dormir. Assim, encontrou uma rua mais tranquila e achou um espaço entre duas casas: um cantinho de grama – o cachorrinho adorava dormir na grama – e coberto. Enrolou-se ao redor de si mesmo, deitou-se e respirou fundo.

Foi só então que o cachorrinho percebeu que uma das casas tinha uma porta. Ela estava aberta e um menino sentado num pequeno degrau estava olhando fixamente para ele. Ao seu lado, um pratinho e um copo de leite. O cachorro se assustou, mas não sentiu medo.

“Você também está esperando o Papai Noel?” perguntou o menino.

O cachorro apenas levantou a cabeça como resposta. Para o menino foi o suficiente, já que ele continuou. “Eu estou esperando o Papai Noel. O papai disse que ele vai passar só depois que eu dormir. Mas eu queria ver o Papai Noel chegar.”

O cachorro continuou olhando o menino e prestando atenção em sua voz. Cachorros reconhecem as pessoas boas (e as ruins) pelo tom de voz delas.

“Eu vou deixar leite com biscoitos para ele. Aposto que o Papai Noel vai gostar. A mamãe deixou eu comer um biscoito, mas só um. Ela disse que os outros são para o Papai Noel”. O menino olhou para o cachorro com mais atenção e pareceu pensar um pouco. Foi quando sorriu como somente crianças que tiveram uma ideia conseguem sorrir. “Você quer um biscoito? Se eu falar que é para você, aposto que a mamãe deixa eu pegar mais um”.

O menino não esperou o cachorrinho responder. Levantou-se e entrou correndo na casa, deixando a porta aberta. Segundos depois, voltou com dois biscoitos nas mãos. Entregou um para o cachorro, que mastigou feliz da vida e quebrou o outro em dois pedaços.

“Como eu já comi um e você já comeu um, nós vamos dividir esse aqui”, o garoto disse. Assim, o cachorrinho comeu metade do biscoito e o menino comeu a outra metade. O cachorro ainda estava mastigando quando o menino se levantou e entrou correndo em casa mais uma vez. Desta vez, ele saiu com um copo de suco e com um pratinho com água. “Eu estou com sede. Você não tem sede quando come biscoitos? Eu trouxe água para você”.

O cachorro bebeu a água – fresquinha, do jeito que ele gostava – e deitou-se novamente. E ele e o menino ficaram conversando por alguns minutos, sobre o Natal, sobre o Papai Noel, sobre ter se comportado durante o ano, sobre o que cada um havia pedido de natal e sobre biscoitos e suco. O menino falava mais que o cachorro, que conversava apenas usando o olhar e abanando o rabo. Mas pareciam se entender perfeitamente.

Entretanto, o cachorro sentiu um cheiro estranho e levantou os olhos. Atrás do menino, duas pessoas – um homem e uma mulher – estavam abraçados, olhando o menino e o cachorro. Ambos sorriam e chamaram o menino. Enquanto a mulher conversava com ele, o homem se aproximou do cachorro, fez carinho em sua cabeça e perguntou se ele estava perdido.

Foi até a rua, olhou para os lados durante alguns minutos. Logo voltou e começou a conversar com a mulher, dizendo coisas sobre não ninguém na rua, sobre não ter coleira, sobre parecer estar com fome e frio. Assim, o homem sorriu para o menino e se ajoelhou ao do cachorro. “Quer passar o Natal com a gente?”, perguntou.

O cachorro latiu e abanou o rabo. E o menino sorriu.

Assim, o cachorro entrou em uma casa pela primeira vez. Era mais quentinha que qualquer outro lugar que ele conhecia, e logo ganhou um pratinho com comida e outro com água. E comeu e bebeu abanando o rabo e ouvindo o homem e a mulher explicarem ao menino que foi o Papai Noel que deixou esse cachorrinho na porta de casa.

O menino ficou tão feliz que se esqueceu de perguntar por que o Papai Noel não tinha comido os biscoitos e perguntou para o homem se ele podia dar um nome para o cachorrinho. O homem fez que sim com a cabeça.

Foi assim que o cachorrinho ganhou um nome. E um lar.

E um novo irmão.

O cachorrinho e o menino ainda estão juntos. Passam o dia inteiro brincando, até a hora de dormir, quando o cachorrinho dorme enrolado num paninho ao lado da cama do garoto. Agora, o menino cuida do cachorrinho e o cachorrinho cuida do menino.

E, uma vez por ano, os dois se sentam na porta da cozinha e esperam juntos pelo Papai Noel, com um pratinho de biscoitos e leite. Para o garoto, aquele é o dia mais especial do ano. Mas, para o cachorrinho, continua sendo um dia igual aos outros. Pois, para ele, agora todo dia é Natal. Afinal, para as pessoas comuns, o Espírito de Natal surge uma vez por ano. Mas, para os tolos e para os sábios, ele aparece todos os dias.

E não existe nada mais sábio que um cachorro que tem a sorte de ter um menino ao seu lado.

1 leitores:

Juba disse...

Não estou chorando, não. É só um cisco que entrou no olho.

Amei o texto.

 

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