10 de setembro de 2013

Crônica de 10 de Setembro



- Hoje é meu aniversário.

Ela falou a frase com a mesma naturalidade de quem anuncia que precisa ir ao banco. Talvez tenha sido que o deixou sem reação. Pego de surpresa pela informação, conseguiu apenas sorrir e dar um beijo desajeitado no rosto dela.

- Parabéns!

- Obrigada.

Conheciam-se há poucos dias. As aulas haviam começado menos de duas semanas antes.

Eram os primeiros dias na faculdade, período em que as pessoas, jogadas no meio de desconhecidos com os quais teriam que conviver durante os próximos anos, ainda não descobriram quem serão seus amigos verdadeiros e ficavam migrando de um grupo para o outro. Ele nunca havia conversado com ela – já havia reparado nela, especialmente nos olhos verdes – mas, conversado mesmo, nunca. E calhou de encontrarem no ônibus, voltando para casa.

E ela, assim, sem mais nem menos, jogou no colo dele a informação de que era seu aniversário.

- Você não avisou ninguém na classe?

- Não. Eu nunca aviso quando é meu aniversário. Não conte para ninguém, tá?

- Por quê? Quer dizer, não conto. Mas por que você não avisa as pessoas?

- Não sei. Acho que não sei lidar direito com tantos parabéns. Sou tímida.

Ele pensou em responder a ela que “não, você não é tímida, você é linda e eu sou tímido”, mas foi tímido até mesmo para isso e abaixou os olhos.

- Bem, parabéns. Mais uma vez.

E se odiou por ter falado parabéns olhando para baixo feito criança, mas parece que ela não percebeu. Levantou os olhos novamente e percebeu que ela estava mais linda. Talvez fosse por causa do aniversário, ou talvez porque o Sol estava batendo nos seus cabelos. Ele lutou para não abaixar os olhos novamente e conseguiu.

- Posso fazer uma pergunta?

- Claro.

- Por que você disse para mim que é seu aniversário?

- Como assim?

- Você não disse para mais ninguém. Mas contou para mim. Por quê?

Ela sorriu. Não apenas um sorriso, mas um sorriso de quem-estava-esperando-ele-perguntar-mas-não-acreditava-que-ele-teria-coragem.

- Não sei. Achei que você deveria saber.

Ele sabia que deveria ter segurado na mão dela. Deveria ter olhado nos olhos dela, ou ajeitado a mecha de cabelos que ameaçava cair sobre seus olhos. Teve certeza que deveria ter feito tudo isso e ter dito alguma frase de efeito. Talvez até tê-la convidado para sair.

Mas ainda era moleque, não sabia direito como agir numa situação como essa. Sentiu sua barriga congelar e teve certeza que estava se comportando de forma totalmente desajeitada. Apenas sorriu – ele não percebeu, mas o sorriso saiu mais sincero que ele poderia imaginar – e disse:

- Bem, parabéns. Quer dizer, de novo.

Ela sorriu novamente e se levantou.

- Eu vou descer no próximo.

Ele afastou as pernas e ganhou um beijo estalado no rosto.

- Segredo nosso, certo?

- Certo.

- 10 de setembro. Não esquece.

Ele deu tchau.

E nunca mais esqueceu. Nas semanas seguintes, ela descobriu suas amigas de faculdade e passou a andar com elas até o final do curso. Ele também, fez amizade com dois garotos e se fechou neste mundo.

Mas nunca esqueceu. E nunca contou para ninguém. Sabia que ninguém mais na sala sabia o aniversário da menina de olhos verdes.

E, todo dia 10 de setembro durante os quatro anos seguintes, ela olhava para ele em algum momento da manhã. E ele sorria para ela. Sorria morrendo de vontade de que seu sorriso falasse um “seu segredo está seguro”, “eu nunca me esqueci” ou, com sorte, um “eu queria ter descido naquele ponto com você no dia do seu aniversário”.

Mas ainda não sabia sorrir tudo isso. Então, seu sorriso discreto no meio da aula dizia apenas “parabéns”.

E ela sorria de volta.

E o sorriso dela dizia muitas coisas, mas nunca dizia porque ela tinha escolhido justamente ele.

1 leitores:

Hydrachan disse...

Por que será, né? =)

10 de Setembro. Não vamos esquecer.

Bjs!

 

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